Opinião
Darfour e a indiferença internacional
De tão evidente a indiferença da Comunidade Internacional perante os massacres no Darfour torna-se não só escabrosa mas cúmplice. Não são apenas os governantes em Cartum e os seus apaniguados no Sul a estimular e a cometer as atrocidades que se espalham d
Não são apenas os governantes em Cartum e os seus apaniguados no Sul a estimular e a cometer as atrocidades que se espalham do Sul do Sudão às regiões mais pobres e remotas do Chade; o silêncio da União Europeia tornou-se já ensurdecedor, o Conselho de Segurança deixa passar em claro as violações das suas Resoluções pelo Governo enquanto, indiferente a tudo, a China estende a sua influência económica e com isso apoia o Governo de Cartum.
O nome da região tornou-se num símbolo. Um símbolo do pior que está a acontecer na primeira década deste novo século. Um símbolo da impotência do Tribunal Penal Internacional, cujo procurador em Novembro do ano passado afirmava ter o seu inquérito concluído e deter as provas necessárias para deduzir acusações. Não o fez. Mesmo que o fizesse iria ter o monstruoso problema de capturar para levar perante a Justiça os arguidos. Bastar recordar que na ex-Jugoslávia muitos dos principias responsáveis pelos genocídios dos Balcãs continuam tranquilamente a monte.
No Sudão Omar Al-Bachir subiu ao poder através de um golpe de Estado e apoia-se nos muçulmanos radicais que pretendem a expulsão definitiva – leia-se extinção – dos povos não muçulmanos do Sul e mesmo dos muçulmanos que não aderiram ao seu radicalismo o continuaram a defender um regime laico. Al-Bachir foi inacreditavelmente passivo perante o crescimento e desenvolvimento de milícias muçulmanas armadas que têm aterrorizado e assassinado a população civil.
A força de União Africana que procura dar alguma protecção só abrange, e com dificuldade, os que se encontram em campos de refugiados. Aldeias têm sido eliminadas do mapa. A Comunidade Internacional reconhece a existência de crimes contra a Humanidade; aprovou algumas Resoluções no Conselho de Segurança, mas manteve o silêncio perante a sua violação. Mesmo depois de Colin Powell, antigo secretário de Estado de George W. Bush, ter acusado o regime de Cartum de crimes de genocídio.
A passividade que responsabilizou a Comunidade Internacional pelo genocídio no Rwanda repete-se escandalosamente no Sudão onde os massacres se estendem já ao vizinho Chade e segundo rumores não confirmados à República Centro Africana.
O mínimo de cinismo não chega para esconder que a descoberta de petróleo no Sudão possa ser a primeira razão do silêncio cúmplice e muito menos do interesse da China pelo país. Explica talvez a lentidão das Nações Unidas no envio de uma força de interposição mesmo com um mandato de implementação de paz, a que a União Africana já deu o seu apoio e está disposta a contribuir reforçando a sua pequena e mal equipada presença militar.
Neste impasse ao genocídio do Darfour está a acrescentar-se o risco de uma regionalização do conflito com o risco acrescido de o regime radical de Cartum procurar estender a sua influência religiosa para o Sul onde existe historicamente uma considerável presença muçulmana que tem coabitado pacificamente com as restantes religiões e etnias durante séculos.
A Al-Qaeda conseguiu estender a sua influência ao Magreb e fez-se anunciar com os atentados na Argélia. Será necessário que se repitam atentados a Sul, como já sucedeu no Quénia, para que a Comunidade Internacional desperte para a realidade perigosa do Darfour? Com ou sem petróleo, mesmo esquecendo as razões humanitárias que assistem à legitimidade de uma intervenção multinacional no Darfour, não será a expansão do fundamentalismo um risco para a região que deve ser equacionado?
A Comunidade Internacional parece em coma profundo, mas mesmo muitos dos doentes em coma estão conscientes do que se passa à sua volta. A diferença é que os doentes em coma profundo são isso mesmo: doentes. À Comunidade Internacional é simplesmente indiferente enquanto as matérias-primas continuarem a chegar.