Opinião
«A diferenciação da Girafa»
Apostar na Internet enquanto canal de vendas de produtos financeiros é, sem mais predicados, considerações ou defesas, uma boa estratégia.
José Henriques, Deloitte Consulting
Apostar na Internet enquanto canal de vendas de produtos financeiros é, sem mais predicados, considerações ou defesas, uma boa estratégia.
As instituições financeiras tradicionais aperceberam-se da sua importância e têm, de uma forma geral, desenvolvido estratégias conducentes ao enriquecimento das propostas de valor endereçadas aos clientes. Fizeram-no, encarando os canais tradicionais com particular acuidade, não descurando o papel convergente e complementar de cada um.
Em tempos que não vão longe, muitos ousaram afirmar a importância decrescente da rede física de balcões. Baseados na conveniência dos novos canais, aconselharam inclusive o direcionamento dos investimentos nos novos canais, em particular no canal telefónico e Internet.
Volvidos anos nenhuma instituição das tradicionais “fechou” portas, pelo contrário, abordaram novas formas de contacto com o cliente que, se consubstanciaram, em mais pontos de venda.
Outros porém, baseados na crescente exigência e sofisticação dos clientes, canalizaram o investimento integralmente para a banca on-line. Convencidos da maturidade dos seus projectos, da flexibilidade da organização e dos baixos custos decorrentes da sua natureza virtual. Estes novos players de mercado, fortalecidos pela vaga pró-web existente há pouco tempo atrás, acreditaram estar perante novos modelos de negócio – os modelos de negócio do futuro. Um futuro que, como sabemos, acontece, em tempo web, mais cedo do que o futuro do tempo tradicional. Eis que esse futuro chegou e não nos tem brindado com a massificação da banca virtual.
Os promotores da banca virtual que apostaram exclusivamente na Internet como forma de diferenciação e, pelo menos na banca, parecem não estar a ter o sucesso pretendido. Há demasiados exemplos com pouco sucesso. Há exemplos de fusões, há exemplos de redireccionamento e de aposta em novas redes de balcões como complemento ao canal Internet.
Porquê? Porque a haver diferenciação nestas iniciativas, ela é feita pela negativa, visto que, os principais concorrentes já têm uma oferta Internet complementada com uma oferta nos canais tradicionais. Uma oferta centrada num só canal é restritiva e tem limitado o seu potencial de crescimento.
Também a girafa dos contos infantis pensou que se diferenciava das outras por ter um pescoço comprido quando, de facto, a sua diferenciação residia, sem que ela se apercebesse, na árvore de onde comia: era sempre a mesma.
Independentemente da competividade da banca virtual e do sucesso da aposta, os serviços financeiros baseados unicamente na Internet têm que encontrar novos formatos para a diferenciação – formatos que dada a sua natureza específica – não sejam, por um lado, facilmente transportáveis para a banca tradicional com canais de distribuição on-line e que, por outro, possibilitem o alargamento da carteira de clientes.
Os clientes valorizam cada vez mais a informação, o aconselhamento financeiro credível, a conveniência e a personalização. Uma estratégia Internet é importante como ponto de partida para o desenvolvimento de soluções que respondam a estas aspirações.
Uma estratégia que deve contudo basear-se numa abordagem multi-dimensional. Refinar a segmentação existente, refinar os modelos de atracção e de fidelização, refinar as competências que conduzem à satisfação integral das necessidades emergentes são afinal desafios de todos os agentes financeiros, independentemente da sua natureza.
A diferenciação residirá nos que conseguirem providenciar informação que ajude clientes e parceiros no acompanhamento da mudança e que os permita atingir os objectivos pessoais. Residirá na disponibilização de funcionalidades one-stop-shop e na promoção de interacções dirigidas proactivamente. Residirá na capacidade de inovar e aperfeiçoar soluções, de modo permanente.
Estes são desafios comuns à banca.
Um estudo recentemente divulgado pela Deloitte Consulting “Financial Services – ”What Customers Really Want” deixou bem clara a vontade do cliente: aceder ao banco a qualquer hora, de qualquer lugar, independentemente do canal de contacto. A diferenciação é o complemento de uma estratégia e não um objectivo em si mesmo.
José Henriques
Senior Manager
johenriques@dc.com