Opinião
À procura de justa causa
Primeiro foi o anúncio da transferência da sede do IAPMEI para o Porto. Um trunfo que Carlos Tavares tirou da manga na interpelação parlamentar suscitada pelo PCP a propósito da crise na Bombardier e um bom «sound byte» a favor da descentralização adminis
Primeiro foi o anúncio da transferência da sede do IAPMEI para o Porto. Um trunfo que Carlos Tavares tirou da manga na interpelação parlamentar suscitada pelo PCP a propósito da crise na Bombardier e um bom «sound byte» a favor da descentralização administrativa e da ligação às PME, saudado como tal, mesmo que com algumas dúvidas sobre o real alcance da medida.
Porque a todos parece mais saudável que as acções descentralizadoras sejam efectuadas diversificando as sedes de novas instituições, como foi feito com a API e como poderia ter sido feito com a Agência Europeia de Segurança Marítima, do que propriamente transferindo organismos já instalados de uma cidade para outra, com o peso de toda a sua estrutura.
Depois do IAPMEI, foi a vez do ICEP, uma vez que os dois institutos partilham a administração, presidida por Pedro Líbano Monteiro.
Os méritos deste tipo de descentralização ainda estão por apurar. Primeiro, porque a transferência das sedes, pese embora o seu valor simbólico, pode não ir além do modelo «tipo BCP», que Líbano Monteiro, aliás, conhece bem: sede no Porto e massa crítica em Lisboa.
Acresce que o argumento usado para a deslocalização também foi infeliz pois, à luz das actuais condições tecnológicas, não é por estar no Norte uma boa parte do tecido de PME industriais que o IAPMEI e o ICEP deve estar no Norte. Pode ser conveniente mas não é decisivo. A opção por instalar fora de Lisboa diversos centros de competências contribui sim para um desenvolvimento mais equilibrado do país e alivia a capital de uma pressão demográfica que penaliza os seus habitantes e todos os contribuintes.
A questão está ainda a azedar o clima entre Carlos Tavares e Líbano Monteiro, cuja entrada para a presidência do ICEP, que depois acumulou com a do IAPMEI, foi apresentada como um caso de recrutamento de uma personalidade com provas dadas na vida empresarial privada e o seu consulado apontado como exemplo de eficiência na gestão dos dois institutos públicos.
Se assim é, dificilmente se compreende que o ministro da Economia se prepare para lhe mudar o local de trabalho sem lhe dar cavaco. Por analogia com o que se passa numa empresa privada, um tal tratamento faz pensar que Carlos Tavares está a procura de uma justa causa para se desembaraçar de Líbano Monteiro.
Líbano Monteiro, por seu lado, se tem capital de queixa por este tipo de tratamento, também escusava de anunciar a indisponibilidade em mudar o domicílio de Lisboa para o Porto. Numa fase em que se apela à mobilidade da força de trabalho, mesmo da pior remunerada, mal fica ao presidente de dois institutos públicos invocar tal argumento.
Como muitos administradores e quadros de empresas nortenhas sabem de experiência própria (e nisso estão muito perto do que é o dia a dia do globalizado mundo dos negócios em que vivemos) passar vários dias da semana fora do domicílio tornou-se pura rotina. Fazer disso um caso, soa a pretexto para bater com a porta.