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Portugal deita fora 9 piscinas de água por hora. Perdas custaram 190 milhões aos municípios em 2023
De acordo com a ERSAR, em 2023 as perdas reais de água no país chegaram a 191 mil milhões de litros, o que representa um aumento de quase 4% face aos 184 mil milhões do ano anterior.
Depois de terem chegado ao valor mais baixo dos últimos cinco anos, as perdas reais de água voltaram a aumentar em Portugal. Na prática, mais de um quarto (27%) de toda a água que entra nas redes de abastecimento do país acaba por ser desperdiçada por causa de roturas, avarias e desvios nas condutas. A culpa é de uma rede manifestamente "envelhecida" e pouco cuidada, com os municípios a investirem cada vez menos na sua reabilitação, aponta a Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR).
Os números mais recentes da ERSAR, relativos a 2023, mostram que nesse ano as perdas de água no país chegaram a 191 mil milhões de litros, o que representa um aumento de quase 4% face aos 184 mil milhões do ano anterior.
Feitas as contas, o regulador mostra que esta água que acaba por ser "deitada fora" equivale a encher quase nove piscinas olímpicas por hora; ao volume de uma albufeira e meia igual à de Odeleite, no Algarve; a 2,5 vezes as necessidades de consumo urbano dos algarvios; e ao suficiente para dar de beber a 2,7 milhões de habitantes. Ou seja, não é coisa pouca.
Ainda assim, a presidente da ERSAR, Vera Eiró, diz que "a série de dados até 2023 mostra uma situação estável". No entanto, isso "não é favorável", sublinha.
Além do impacto ambiental, a clara ineficiência hídrica em Portugal (que além das perdas da rede contabiliza as afluências indevidas que sobrecarregam o sanemaento) tem também um custo para os cofres dos municípios, que acabam por ter de compensar estas perdas comprando mais água ao grupo Águas de Portugal.
Olhando apenas para as perdas de água, estas custaram 88 milhões em 2023 (face aos 83 milhões de 2022). Em termos médios, entre 2019 e 2023, este valor rondou os 86,6 milhões de euros por ano. "Caso se mantenha a tendência até agora verificada, estima-se que o potencial de poupança associado às perdas reais ascenda a cerca de 520 milhões de euros até 2030", refere o relatório. Isto a somar aos 433 milhões já perdidos entre 2019 e 2023.
A estes valores somam-se ainda as afluências indevidas ao sistema de saneamento, que em 2023 custaram 102 milhões de euros (mais do dobro dos 61 milhões registados em 2022), o que a somar às perdas de água dá um total de 190 milhões de euros nesse ano. Em média, entre 2019 e 2023, o custo médio destas afluências foi de 75 milhões por ano, o que dá 375 milhões para os cinco anos. Continuando assim, até 2030, a ERSAR prevê um gasto de mais 450 milhões de euros.
Apesar do aumento de 4% nas perdas de água em 2023, Vera Eiró, diz que "a tendência é estabilizar". "Por um lado é bom, porque este indicador não está a piorar, mas por outro lado é muito mau, porque não há uma melhoria significativa. E nós precisamos de melhorar, claramente. Este é um guião de atuação para as entidades gestoras, para estas talharem caminho na questão das perdas de água", disse a responsável à margem da apresentação do volume 1 do Relatório Anual dos Serviços de Águas e Resíduos em Portugal (RASARP), agora publicado.
A responsável revelou ainda que o próximo RASARP, relativo a 2024 (e que será apresentado em 2026), poderá já trazer melhores notícias, em virtude de "um trabalho que tem sido feito desde 2024, associado a contratos de eficiência que muitos municípios celebraram", com destaque para o Algarve. "Os resultados preliminares demonstram melhorias grandes na água não faturada e também nas perdas reais. Por isso, esperamos melhorias no próximo ano", prevê Vera Eiró.
A presidente do regulador do setor da água e resíduos refere que a situação das perdas de água era particularmente dramática no Algarve, algo que foi "diagnosticado" e está a ser resolvido. "Só para terem uma ideia, o volume de perdas reais medidas no Algarve é equivalente ao volume de água que vai ser produzido pela futura dessalinizadora. Houve trabalho já feito na região, para travar isto, que ainda não está medido e validado pelo RASARP, por é muito recente", explicou Vera Eiró.