Opinião
Três meses em Washington (IV)
A curta crónica da crise é fácil e difícil. Fácil, porque qualquer visitante dos Estados Unidos é invadido pelos seus sinais com uma intensidade brutal nos jornais, na televisão, nas ruas. Difícil porque as fotografias da crise são muitas e porque, com um efeito
A curta crónica da crise é fácil e difícil. Fácil, porque qualquer visitante dos Estados Unidos é invadido pelos seus sinais com uma intensidade brutal nos jornais, na televisão, nas ruas. Difícil porque as fotografias da crise são muitas e porque, com um efeito impressionante, as crónicas da crise se cruzam todos os dias com os restos das crónicas dos tempos fartos da última década.
Depois de anos e anos de aumento da despesa pública, o Estado da Califórnia vê-se hoje com um défice de mais de 40 biliões de dólares, o qual resulta tão-somente da conjugação de anos de aumento da despesa pública com a súbita redução da receita fiscal. O número é impressionante, mas tão impressionante como o número é o efeito de paralisação que está a ter na economia do maior e mais rico Estado da União - parte relevante das obras públicas pararam, o governo não está a cumprir as suas obrigações mais elementares e o "rating" para emissão de dívida pelo Estado é hoje o pior dos Estados Unidos. Não há dia em que, nas notícias, não surja o imenso pantanal em que há meses os políticos locais se colocaram.
Com tanto ou mais impacto na opinião pública, temos todos os dias a exploração - a legítima e também a populista - sobre os gastos dos bancos e seguradoras que estão a ser objecto de ajuda federal. Tipicamente o tema é o mesmo - o cumprimento de compromissos assumidos quando o mundo era, efectivamente, diferente e que agora, colocados em perspectiva, mostram bem a loucura em que alguns viveram. Primeiro, foram os bónus dos executivos - durante a segunda metade do século XX a estrutura das remunerações dos gestores das grandes sociedades cotadas americanas foi sofrendo uma alteração radical, passando a parte variável da remuneração a ser cada vez mais importante. Escusado será dizer que com a espiral de lucros dos últimos anos se fez uma grande festa e que parte da conta está a chegar no mais inoportuno momento. Segundo, foram os patrocínios e outros compromissos que agora parecem verdadeiras loucuras - mesmo a um adepto dos Mets custa explicar que o Citigroup, que já despediu mais de cinquenta mil funcionários e foi objecto de forte ajuda federal, vá pagar 400 milhões de dólares pelo "branding" do novo estádio, o já maldito Citi Field; e os exemplos podiam ser multiplicados com facilidade.
E temos, claro, o centro da crise - o imobiliário. Basta sair dos grandes centros urbanos para encontrar os sinais visíveis do momento que a economia americana vive. As grandes cidades acabam por ocultar a mudança - Washington não devia ser muito diferente do que hoje vejo, apesar das muitas placas com imóveis que dão cor às ruas e dos sinais de "New price" que muitas dessas placas ostentam. Uma ida de Washington a Baltimore - pouco mais de 50 km - e outra de Washington a Nova Iorque - quatro horas de comboio - mostram no entanto todos os sinais da crise. Entre Washington e Baltimore passei por centenas de imóveis com anúncios de venda. Já perto de Baltimore, existem complexos imobiliários destinados a serviços que estão, por inteiro, como casas-fantasma - sem carros estacionados e à espera dos primeiros ocupantes. E são estas cidades fantasmas que mais assustam no actual momento. A nova administração viu isso e não deverá haver outro aspecto da actual crise que tenha merecido tanta atenção - o impacto público do pacote para redução dos pagamentos em risco de incumprimento é disso sinal mais evidente. Mas com o novo pacote, um novo receio começou a grassar - é que custa hoje a entender se os incumprimentos que não param de aumentar se devem apenas ao facto de os devedores não terem fundos, ou ao facto de não valer a pena pagar, pois com a redução do valor das casas e a passagem para uma situação em que a dívida é cada dia maior que o valor do imóvel, passou a opção mais racional o não pagamento, a execução e a perda de crédito bancário.
Mas é quando os articulados comentários sobre o momento que vivemos dão o lugar a histórias de gente normal; em que a crise ganha caras, cores e cheiros; em que os despedimentos colectivos, a crise do "subprime", as execuções de hipotecas, a crise do mercado imobiliário, tudo isto passa a ser visível a olho nu, tal como se vê a chuva ou a neve; que a impressão passa a ser marcante. A semana passada um rapaz libanês que vende fruta num pequeno supermercado ao lado de minha casa despediu-se de mim, explicando que o dono tinha despedido dois dos três funcionários. Não sabia o que ia fazer. E todos os dias são tantos como ele. Dos dois lados do oceano.
Depois de anos e anos de aumento da despesa pública, o Estado da Califórnia vê-se hoje com um défice de mais de 40 biliões de dólares, o qual resulta tão-somente da conjugação de anos de aumento da despesa pública com a súbita redução da receita fiscal. O número é impressionante, mas tão impressionante como o número é o efeito de paralisação que está a ter na economia do maior e mais rico Estado da União - parte relevante das obras públicas pararam, o governo não está a cumprir as suas obrigações mais elementares e o "rating" para emissão de dívida pelo Estado é hoje o pior dos Estados Unidos. Não há dia em que, nas notícias, não surja o imenso pantanal em que há meses os políticos locais se colocaram.
E temos, claro, o centro da crise - o imobiliário. Basta sair dos grandes centros urbanos para encontrar os sinais visíveis do momento que a economia americana vive. As grandes cidades acabam por ocultar a mudança - Washington não devia ser muito diferente do que hoje vejo, apesar das muitas placas com imóveis que dão cor às ruas e dos sinais de "New price" que muitas dessas placas ostentam. Uma ida de Washington a Baltimore - pouco mais de 50 km - e outra de Washington a Nova Iorque - quatro horas de comboio - mostram no entanto todos os sinais da crise. Entre Washington e Baltimore passei por centenas de imóveis com anúncios de venda. Já perto de Baltimore, existem complexos imobiliários destinados a serviços que estão, por inteiro, como casas-fantasma - sem carros estacionados e à espera dos primeiros ocupantes. E são estas cidades fantasmas que mais assustam no actual momento. A nova administração viu isso e não deverá haver outro aspecto da actual crise que tenha merecido tanta atenção - o impacto público do pacote para redução dos pagamentos em risco de incumprimento é disso sinal mais evidente. Mas com o novo pacote, um novo receio começou a grassar - é que custa hoje a entender se os incumprimentos que não param de aumentar se devem apenas ao facto de os devedores não terem fundos, ou ao facto de não valer a pena pagar, pois com a redução do valor das casas e a passagem para uma situação em que a dívida é cada dia maior que o valor do imóvel, passou a opção mais racional o não pagamento, a execução e a perda de crédito bancário.
Mas é quando os articulados comentários sobre o momento que vivemos dão o lugar a histórias de gente normal; em que a crise ganha caras, cores e cheiros; em que os despedimentos colectivos, a crise do "subprime", as execuções de hipotecas, a crise do mercado imobiliário, tudo isto passa a ser visível a olho nu, tal como se vê a chuva ou a neve; que a impressão passa a ser marcante. A semana passada um rapaz libanês que vende fruta num pequeno supermercado ao lado de minha casa despediu-se de mim, explicando que o dono tinha despedido dois dos três funcionários. Não sabia o que ia fazer. E todos os dias são tantos como ele. Dos dois lados do oceano.
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