Opinião
A cultura do dinheiro fácil!
Se tudo correr de acordo com o plano de quem organizou esta operação, a maioria dos 3000 trabalhadores do Facebook ficará multimilionária, parte deles reformar-se-á muito antes do que previa.
É difícil de entender como, estando ainda fresca na memória de todos a crise do "subprime", a falência da Lehman e a turbulência que ambas provocaram nos mercados financeiros mundiais, bancos de investimento com o prestígio, a tradição e responsabilidades globais da Morgan Stanley, JP Morgan e Goldman Sachs promoveram e tomaram firme o IPO do Facebook, nos termos em que o fizeram.
O prestígio das casas de investimento, a solvabilidade de investidores e a transparências das operações de bolsa no maior mercado mundial voltam à primeira página dos jornais, infelizmente não por bons motivos.
Escrevia o "NY Times", ontem, que nada teria acontecido se os bancos e os donos do Facebook não tivessem empurrado o preço das acções para limites insustentáveis!
No passado como agora, porque as pessoas e as instituições onde se reflecte o seu estilo de gestão são incorrigíveis, tudo gira à volta de dinheiro e poder, ou seja, de ambição respeitável que se transforma em ganância incontrolável.
Os números estão aí: o jovem Zuckerberg lucrou 16,1 mil milhões de dólares, a sua CFO (Sheryl Sandberg) 1,3 e James Breyner e a Accel Partners (que em 2005 tinham investido 13,7 milhões) 4,9 mil milhões.
Até Bono dos U2 teria recebido mais nesta operação (mil milhões) do que em toda a sua carreira musical!
Se tudo correr de acordo com o plano de quem organizou esta operação, a maioria dos 3000 trabalhadores do Facebook ficará multimilionária, parte deles reformar-se-á muito antes do que previa, o Estado da Califórnia (onde se situa a sede da empresa) arrecadará, pelo menos, 2 mil milhões de dólares de receita fiscal adicional e as agências imobiliárias e advogados da Califórnia não terão mãos a medir com vendas e divórcios não previstos!
Como escrevia o "Economist", antes da colocação em bolsa, "um único IPO poderá produzir um grande efeito na nona maior economia do Mundo!".
Finalmente, a taluda em prémios significativos ou em terminações também chegará às casas de investimento subscritoras e a quem nelas trabalhou na operação.
Dir-se-á, tudo normal porque " that’s the American way".
Mas esta operação estava viciada desde o início exactamente porque, apesar dos avisos de alguns analistas e de indícios constantes da rectificação ao prospecto apresentada pelo Facebook, o preço da colocação foi esticado para o seu limite superior e os típicos especuladores, que estão na bolsa como um jogador está no casino, esperavam ficar multimilionários em 4 horas.
Na véspera da colocação o "Financial Times" online alertava os que esperavam que os títulos mudassem de mãos 4 vezes nas primeiras horas de trading; o "Economist", na edição de 12 de Maio, escrevia que o Facebook "ainda tinha muito que provar", que as vendas tinham diminuído 12%, no primeiro trimestre de 2012, que a publicidade representava 80% das receitas da empresa e que a empresa estava as ser avaliada com um múltiplo de 100 sobre as vendas, sendo certo que o próprio Zuckerberg cautelarmente alertava, no prospecto, para a incerteza da sua receita futura.
Mais, a imprensa especializada noticiou nos dias que antecederam a Oferta, que algumas empresas multinacionais tinham retirado a sua publicidade do Facebook por acharem que a plataforma não satisfazia os seus objectivos: "os Facebookers estão muito ocupados no chatting com os amigos e têm pouco tempo para utilizar a publicidade interactiva".
Apesar desses indícios e da retirada à última hora de substanciais ordens de compra por parte de alguns pessoas e instituições que tiveram acesso a relatórios pessimistas elaborados por analistas independentes que trabalham para as casas de investimento que tomaram firme a operação, os Facebookers acorreram em massa porque os avisos não eram claros e "as pessoas querem ter acções porque gostam muito do Facebook e há quem lhe tenha mesmo devoção".
Um consultor financeiro português, citado pelo Expresso, contava com que as acções subissem "50% a 70% nas primeiras horas"!
Nada disso se passou e os advogados americanos vão efectivamente ter mais trabalho, mas agora com as acções de indemnização movidas contra o Facebook e respectivos gestores, contra a Morgan Stanley como líder do sindicato bancário que tomou firme a operação e, até contra o próprio Nasdaq.
Motivo: omissão de informação essencial à tomada da decisão de investir na compra de acções, fornecimento apenas a alguns clientes de relatórios de analistas que desaconselhavam a compra de acções e organização deficiente do primeiro dia de "trading".
Porque é que uma das mais aguardadas e substanciais (dizem que a segunda maior de sempre!) ofertas públicas de venda de acções se transformou num enorme fiasco: pois porque, apesar de todo o passado recente e de toda a regulação presente, a cultura do dinheiro fácil e do poder que ele gera e atrai não se erradica com facilidade.
Advogado
mcb@mcb.com.pt
O prestígio das casas de investimento, a solvabilidade de investidores e a transparências das operações de bolsa no maior mercado mundial voltam à primeira página dos jornais, infelizmente não por bons motivos.
No passado como agora, porque as pessoas e as instituições onde se reflecte o seu estilo de gestão são incorrigíveis, tudo gira à volta de dinheiro e poder, ou seja, de ambição respeitável que se transforma em ganância incontrolável.
Os números estão aí: o jovem Zuckerberg lucrou 16,1 mil milhões de dólares, a sua CFO (Sheryl Sandberg) 1,3 e James Breyner e a Accel Partners (que em 2005 tinham investido 13,7 milhões) 4,9 mil milhões.
Até Bono dos U2 teria recebido mais nesta operação (mil milhões) do que em toda a sua carreira musical!
Se tudo correr de acordo com o plano de quem organizou esta operação, a maioria dos 3000 trabalhadores do Facebook ficará multimilionária, parte deles reformar-se-á muito antes do que previa, o Estado da Califórnia (onde se situa a sede da empresa) arrecadará, pelo menos, 2 mil milhões de dólares de receita fiscal adicional e as agências imobiliárias e advogados da Califórnia não terão mãos a medir com vendas e divórcios não previstos!
Como escrevia o "Economist", antes da colocação em bolsa, "um único IPO poderá produzir um grande efeito na nona maior economia do Mundo!".
Finalmente, a taluda em prémios significativos ou em terminações também chegará às casas de investimento subscritoras e a quem nelas trabalhou na operação.
Dir-se-á, tudo normal porque " that’s the American way".
Mas esta operação estava viciada desde o início exactamente porque, apesar dos avisos de alguns analistas e de indícios constantes da rectificação ao prospecto apresentada pelo Facebook, o preço da colocação foi esticado para o seu limite superior e os típicos especuladores, que estão na bolsa como um jogador está no casino, esperavam ficar multimilionários em 4 horas.
Na véspera da colocação o "Financial Times" online alertava os que esperavam que os títulos mudassem de mãos 4 vezes nas primeiras horas de trading; o "Economist", na edição de 12 de Maio, escrevia que o Facebook "ainda tinha muito que provar", que as vendas tinham diminuído 12%, no primeiro trimestre de 2012, que a publicidade representava 80% das receitas da empresa e que a empresa estava as ser avaliada com um múltiplo de 100 sobre as vendas, sendo certo que o próprio Zuckerberg cautelarmente alertava, no prospecto, para a incerteza da sua receita futura.
Mais, a imprensa especializada noticiou nos dias que antecederam a Oferta, que algumas empresas multinacionais tinham retirado a sua publicidade do Facebook por acharem que a plataforma não satisfazia os seus objectivos: "os Facebookers estão muito ocupados no chatting com os amigos e têm pouco tempo para utilizar a publicidade interactiva".
Apesar desses indícios e da retirada à última hora de substanciais ordens de compra por parte de alguns pessoas e instituições que tiveram acesso a relatórios pessimistas elaborados por analistas independentes que trabalham para as casas de investimento que tomaram firme a operação, os Facebookers acorreram em massa porque os avisos não eram claros e "as pessoas querem ter acções porque gostam muito do Facebook e há quem lhe tenha mesmo devoção".
Um consultor financeiro português, citado pelo Expresso, contava com que as acções subissem "50% a 70% nas primeiras horas"!
Nada disso se passou e os advogados americanos vão efectivamente ter mais trabalho, mas agora com as acções de indemnização movidas contra o Facebook e respectivos gestores, contra a Morgan Stanley como líder do sindicato bancário que tomou firme a operação e, até contra o próprio Nasdaq.
Motivo: omissão de informação essencial à tomada da decisão de investir na compra de acções, fornecimento apenas a alguns clientes de relatórios de analistas que desaconselhavam a compra de acções e organização deficiente do primeiro dia de "trading".
Porque é que uma das mais aguardadas e substanciais (dizem que a segunda maior de sempre!) ofertas públicas de venda de acções se transformou num enorme fiasco: pois porque, apesar de todo o passado recente e de toda a regulação presente, a cultura do dinheiro fácil e do poder que ele gera e atrai não se erradica com facilidade.
Advogado
mcb@mcb.com.pt
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