Opinião
A Evolução na Revolução
A querela do «R» parece-me tão absurda quanto hílare. Revolução = Evolução constitui, afinal, uma conexão que se não elimina em si mesma, porque é difícil separar o normativo do factício.
A querela do «R» parece-me tão absurda quanto hílare. A semântica interpretativa que pressupõe, não faz qualquer sentido.
Revolução = Evolução constitui, afinal, uma conexão que se não elimina em si mesma, porque é difícil separar o normativo do factício.
Talvez o Governo, em função das suas ambiguidades ideológicas, tendesse a apagar a raiz inicial do 25 de Abril, mas a razão crítica e o imperativo da História possuem um poder analítico que supera a constrição dogmática.
O País vive, socialmente, entre a pedofilia, a corrupção e os escândalos no futebol. Intelectualmente, entre o Levanta-te e Ri!, o esfuziante padre Borga, as Produções Fictícias e o Cabaret da Coxa.
Para nos indicar o caminho e a virtude lá estão, semanalmente, na SIC - Notícias, o Trio Maravilha: Pacheco, Xavier e Magalhães, que nada mais fazem do que comentar o óbvio.
Durão Barroso prepara-se para uma nova chacina de impostos indirectos, sob o eufemismo mariola de «receitas extraordinárias»; o desemprego cresceu 40 por cento nos dois últimos anos; ninguém divisa a luz ao fundo do túnel.
Todos os dias somos sacudidos por tremores de terra morais, sociais e políticos. E o debate circunscreve-se à grave questão do «R».
A realidade vive no campo das hipóteses e gera disparatadas atitudes como aquela, do PS, ao declarar que não deseja fazer cair o Governo. A Esquerda começa a subsistir de efemérides e gosta de erguer o punho fechado, com cada vez mais alargada periodicidade.
A Direita é enfadonha e continua a acreditar que o Poder lhe pertence por direito celeste, utilizando como argumento uma graça farsola, estilo Gervásio Lobato de segundo patamar. Ambas se completam porque nenhuma pode existir sem a outra.
E, no concernente a ideias, a Direita e a Esquerda – pim-pam-pum, nada! O impulso de algumas criaturas em não se conformar coma evidência da História, testemunha a força do 25 de Abril.
O diagnóstico pessimista não encontra relação com o que realmente sucede. Há uma nova mentalidade no País, advinda das circunstâncias da Revolução. A própria linguagem beneficiou das propostas da liberdade.
Todorov explica o que a ignorância persiste em negar: o ponto das relações entre uma e outras está na ascendência de numerosos trabalhos da prof.ª dr.ª Maria Alzira Seixo. Na liberdade, a linguagem comporta em si a reivindicação e a procura da verdade.
O cruzamento entre o sonho que a Revolução suscitou e o desejo a que imediatamente deu origem caracterizam a natureza da própria Evolução. Uma e outra encontram-se tão profundamente marcadas em todos nós, como a ideia de República.
Torna-se ociosa qualquer discussão sobre a matéria. Porém, nada é indiscutível, por improfícuo que o assunto seja. E suponho que é exactamente a falta de assunto que espoletou a extravagante querela entre Esquerda e Direita.
As grandes questões nacionais continuam a ser secundarizadas, por absoluta falta de soluções. No meio desta astenia intelectual, Nuno Rogeiro tem sido, para mim um tanto inesperadamente, o notável comentador da invasão do Iraque.
A reavaliação que faz dos acontecimentos merece aplauso. E tem ideias próprias, facto nada despiciendo nos dias que correm. Uma significativa presença na SIC.
Apostila – Vale a pena adquirir o último número de «Le Nouvel Observateur», sobretudo para ler um notável artigo de Jacques Derrida, pouco frequentado pelos dirigentes políticos da Esquerda portuguesa, porque ele põe em questão a natureza do pensamento de Marx quando interpretado dogmaticamente, acriticamente e adialecticamente.
A propósito do tema «Para onde vão os valores», o grande filósofo escreve: «Todos nós somos herdeiros, pelo menos, de pessoas ou de acontecimentos marcados, de maneira essencial, interior, inapagável por crimes contra a humanidade.»
A reter.
Frase para decorar – «A justiça defende-se com a razão e não com as armas. Não se perde nada com a paz. Tudo se pode perder com a guerra.» – JOÃO XXIII.