Opinião
A oportunidade da Europa
É evidente que a traição dos EUA à Ucrânia ficará na memória dos líderes europeus. Mesmo aqueles que competem pelos minutos de atenção de Trump e Elon Musk no apoio às suas ideias nacionalistas, anti-imigração e mesmo racistas e intolerantes, percebem bem uma realidade: ficar sozinho e desarmado mesmo em frente da Rússia Imperial de Putin não é um grande plano.
A mudança na política externa e de defesa norte americana foi radical e absolutamente clara. Esta mudança pode ser vista através de um reduzido, mas significativo, conjunto de momentos e atos.
Começou com o discurso proferido pelo do Secretário de Estado da Defesa americano, que afirmou sem ambiguidades que a defesa da Europa não era uma prioridade e que os EUA não estavam disponíveis para prosseguir o apoio militar e financeiro à Ucrânia. Seguiu com a intervenção do vice-presidente J.D. Vance em Munique, onde afirmou que a principal ameaça à paz não estava na Rússia, na China ou em qualquer de âmbito tecnológico, mas sim na própria Europa, na suas políticas de imigração e de limitação à liberdade de expressão. Saído da conferência, Vance foi reunir com a líder da extrema-direita alemã manifestando de novo o apoio da administração americana a esse movimento.
Seguiram-se os contactos diretos entre EUA e Rússia, em que a nova administração americana traiu de uma só vez a Ucrânia e os países europeus, ao oferecer na prática um acordo nos termos pretendidos pela Rússia, com desprezo total pelas pretensões ucranianas e europeias quanto à proteção na região. Segue-se uma retórica violenta e grotesca de Trump sobre Zelensky, como forma de pressão para que este aceite a extorsão das riquezas minerais da Ucrânia que os EUA pretendem levar a cabo. A traição consuma-se em definitivo com o voto contra nas Nações Unidas à moção que assinalava os três anos passados da invasão russa, e com a afirmação de Trump (agora empregue por toda a sua administração), de que a Ucrânia tinha iniciado o conflito e que a Rússia era a agredida.
Neste momento França e Reino Unido lideram os diálogos com os americanos no sentido de assegurar a cobertura da NATO a uma força multinacional de base europeia que ficasse estacionada na Ucrânia, assegurando a ucranianos e europeus as garantias contra novos avanços russos. Este processo antevê-se no essencial infrutífero, mas teremos as conclusões nos próximos dias.
Como escrevemos na semana passada o mundo mudou mesmo, e é essencial ter uma leitura clara do novo quadro que enfrentamos. É verdade que ver o fim de um modelo de aliança, amizade e cooperação transatlântica que assegurou a paz na Europa durante 75 anos (com exceção da guerra na ex-Jugoslávia) é algo perturbador. Mas é também verdade que o novo quadro oferece à Europa um conjunto gigantesco de oportunidades impensável há bem pouco tempo atrás. O reconhecimento deste quadro de oportunidades e da necessidade de ação conjunta começa a ser alvo de consenso cada vez mais alargado no conjunto dos líderes europeus.
Desde logo no reforço dos instrumentos de defesa, no sentido de assegurar, a médio prazo, a autonomia face aos EUA. Já existe um razoável consenso sobre como concretizar. O financiamento virá no essencial dos orçamentos nacionais (através da exclusão das despesas em defesa, pelo menos a partir de 2% do PIB, dos cálculos do défice), o que levará a Alemanha a uma alteração constitucional impensável há pouco tempo, e tornada possível pela nova grande coligação CDU/SPD em construção. Para responder a esta necessidade, será desenvolvida uma forte indústria militar de base europeia, num salto de gigante face às baixas e esparsas capacidades sobretudo concentradas no Reino Unido, França, Itália e Alemanha. O caminho não será rápido - e a pressão americana para se manter como grande fornecedor europeu será grande - mas à Europa não falta nenhum recurso para ser bem sucedida.
Noutra dimensão, a Europa pode (e vai, certamente) aproveitar o gigantesco vazio que a nova política isolacionista norte americana começa a deixar em vários espaços do mundo. Da Ásia, à América Latina passando por África, o novo isolacionismo americano começará a mostrar os seus efeitos, decorrentes da mudança de orientação no financiamento de projetos por parte de instituições internacionais de apoio ao desenvolvimento (tradicionalmente com grande poder dos americanos), do fim da USAID, da redução ou fim da presença militar ou do simples abandono de antigos (e recentes) aliados. Ora este espaço irá ser preenchido pela Europa ou pela China, havendo claras vantagens do velho continente em várias áreas geográficas até por o modelo chinês se ter mostrado predatório. Da rápida expansão de acordos comerciais e investimento produtivo, a uma política ativa de apoio ao desenvolvimento, há um mundo a descobrir.
Por último, é evidente que a traição dos Estados Unidos à Ucrânia ficará na memória dos líderes europeus por muito tempo. Mesmo aqueles que competem pelos minutos de atenção de Trump e Elon Musk no apoio às suas ideias nacionalistas, anti-imigração e mesmo racistas e intolerantes, percebem bem uma realidade: ficar sozinho e desarmado mesmo em frente da Rússia Imperial de Putin não é um grande plano. Será com ironia, mas não com espanto, que ainda ouviremos Marine Le Pen a defender o projeto europeu e que com este gesto, os americanos apoiaram o reforço da Europa.