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08 de Agosto de 2011 às 11:15

A China e o ciclo das matérias-primas

Passei recentemente uma semana fascinante na China.

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Passei recentemente uma semana fascinante na China. Cheguei cauteloso ao país, mas parti com um sentido renovado de conforto relativamente à história de crescimento estrutural no longo prazo. Também cheguei a algumas conclusões importantes acerca da influência contínua da China nos mercados mundiais de matérias-primas.

De uma perspectiva macroeconómica, não há dúvida que o aperto monetário, a inflação dos preços das matérias-primas e a escassez de oferta de electricidade estão a provocar um abrandamento significativo no crescimento do PIB chinês. A dificuldade em obter crédito está igualmente a ter um grave impacto nas pequenas e médias empresas, o que levará inevitavelmente a um aumento do crédito malparado no sector bancário.

As vendas de automóveis estão débeis devido a diversas medidas governamentais, os volumes de vendas no sector da habitação são baixos e um mercado bolsista fraco continua a apontar para uma diminuição da liquidez. Também não há dúvidas que os programas de estímulo chineses de 2009/2010 levaram a uma alocação incorrecta do capital, tendo provavelmente trazido alguma procura de matérias-primas.

No entanto, na minha opinião, tudo isto indicia mais um abrandamento cíclico induzido no ritmo de crescimento, destinado a controlar as pressões inflacionistas do que revela uma tendência para um declínio estrutural como alguns dos pessimistas acerca da China nos querem fazer crer.

Em primeiro lugar, algumas palavras acerca do crescimento - o crescimento da China continua a ser impulsionado por dividendos demográficos, pela urbanização e pela globalização. Palavras fortes, mas, ao folhear uma revista de bordo na minha recente viagem, apercebi-me disto. O número de aeroportos na China é muito menor do que nos EUA. Recorde-se que a China tem aproximadamente a mesma área geográfica mas cerca de 3,5 vezes mais habitantes. Existe claramente uma grande margem para o crescimento.

A HSBC publicou igualmente um relatório interessante (The Southern Silk Road - Stephen King stephen.king@hsbc.com - Junho de 2011) que coloca o desenvolvimento dos diversos mercados emergentes num contexto histórico, comparando-o com o desenvolvimento económico dos EUA. Nesta base, a China situa-se aproximadamente onde os EUA se encontravam em 1941 (e os bulls mais radicais do mercado de matérias-primas notarão que a Índia se situa onde os EUA se encontravam em 1882).

No entanto, o que é ainda mais interessante é que a China está alcançar numa década o que os EUA alcançaram em 50 anos.

Este ritmo rápido de inovação e de crescimento da produtividade foi evidente durante a minha viagem. Por exemplo, os chineses trabalharam arduamente para aumentar a oferta interna de alguns recursos e para reduzir os custos. No que diz respeito a matérias-primas tais como o alumínio, a bauxite, o níquel e os aços inoxidáveis, as empresas chinesas continuam a inovar sendo, na minha opinião, nalguns casos mais competitivas que as empresas ocidentais. No que se refere à produção industrial, a dimensão significativa do mercado doméstico confere igualmente às empresas chinesas uma vantagem significativa em termos de escala, permitindo-lhes um maior investimento em I&D, produtividade e inovação.

Muito se tem escrito acerca da alegada bolha imobiliária da China. A minha opinião é ligeiramente diferente da que tem sido expressa em comentários recentes. É verdade que os preços do imobiliário se situam perto do máximo da tendência de subida em termos reais e que o rácio preço/rendimento do sector da habitação é elevado. A área em construção aumentou substancialmente na última década e argumenta-se que os preços têm de baixar com vista a escoar a oferta.

No entanto, o argumento forte que se opõe a este é que o "stock" total do sector da habitação na China ainda é inferior à procura (de acordo com algumas estimativas em cerca de quase 80 milhões de unidades). A maior parte da oferta situou-se no segmento de topo do mercado, tendo sido absorvida por investidores que pagaram em dinheiro (dada a ausência de outras alternativas de investimento numa era de taxas de juro reais negativas), o que levou a uma escassez real nos segmentos médio e baixo do mercado. É como se tivesse havido excesso de construção em Knightsbridge, em Londres, mas pouca construção no exterior da M25. O governo, através do seu programa de habitação social (tal como a habitação social no Reino Unido) está a tentar resolver este desequilíbrio e, com o decorrer do tempo, isto servirá de suporte à procura de matérias-primas.

Para algumas matérias-primas, o consumo interno também continua a ser um motor positivo da procura. O cobre parece ser um beneficiário, devido à sua importância por exemplo no fabrico de ar condicionado e automóveis. A China continua empenhada na inovação e nas novas tecnologias. Os novos automóveis eléctricos, por exemplo, utilizam quase três vezes mais cobre que os tradicionais. De uma forma geral, os automóveis na China são adquiridos a pronto pagamento e, com menos de 60 automóveis por cada 1000 pessoas (em comparação com 750 nos EUA e com uma média de 150 no mundo), parece existir uma grande margem para crescimento no futuro1.

Portanto, para mim, as principais conclusões a que cheguei nesta viagem que fiz recentemente foram:

• A China mantém-se numa trajectória de crescimento estrutural, mesmo quando no curto prazo atravessa um abrandamento cíclico induzido com vista a combater a inflação.

• A inovação e produtividade permanecem fortes e, embora a crescente inflação dos custos de mão-de-obra constitua uma preocupação, um PIB per capita acrescido conduzirá a economia para um crescimento mais baseado no consumo.

• À medida que a China se vai tornando uma economia mais baseada no consumo (ao contrário do que sucedeu nos últimos dez anos durante os quais o crescimento teve por base o investimento), as perspectivas para as matérias-primas de consumo (energia, platina, potassa, petróleo) serão superiores às que se baseiam sobretudo nas despesas de investimento (aço, alumínio, minério de ferro, etc.).

Estas alterações jogam a favor das competências dos "stock pickers", uma vez que os vencedores durante os próximos dez anos serão muito distintos dos vencedores dos últimos dez. Apoiado pela nossa forte equipa de pesquisa que opera no terreno na China (e, de facto, em todo o mundo), penso estar bem posicionado para aproveitar estas alterações em todos os fundos globais que se encontram sob a minha gestão.



A China mantém-se numa trajectória de crescimento estrutural, mesmo quando no curto prazo atravessa um abrandamento cíclico induzido com vista a combater a inflação.



*gestor de carteira na equipa de acções mundiais


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