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Opinião
04 de Fevereiro de 2011 às 12:16

Verdade exigente e impostura balofa

(Onde o autor, tendo escutado o discurso de Obama sobre o Estado da União bem como a entrevista de Geithner em Davos a Charlie Rose, e com estupefacção crescente a arenga do PM na Assembleia da República, conclui que a verdadeira pobreza de Portugal não está na falta de recursos naturais nem na sua situação periférica, mas no miserabilismo alta velocidade dos seus dirigentes).

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Pessoalmente, sou fã de Obama, cuja empatia, oratória e pragmatismo idealista (uma contradição apenas aparente) me recordam fortemente o inexcedível Ronald Reagan, como já aqui escrevi (doutamente). Esta semelhança quanto à postura, já a vi referida várias vezes, ainda esta semana de novo na "Time", o que só pode constituir um bom prenúncio para os Estados Unidos porque, independentemente das clivagens e das oposições, o caminho que segue é, acima de tudo, do êxito do país, que arrouba empolgantemente. É do estilo que pergunta o que cada um pode fazer pela pátria, liderando e alistando os cidadãos a quem se dirige, descrevendo as situações, mesmo as mais delicadas e adversas, com verdade nua e crua, o que lhe permite apontar desígnios e rumos.

Particularmente notável achei o apelo ao empreendedorismo, aliás, a massa que fez a América, e que um homem dito de esquerda - a esquerda por lá é mais liberal que muita direita de cá - lance o apelo primeiro às forças que desenvolvem a economia e criam emprego (cá, parece que são as empresas públicas). Joe Klein, na referida "Time", até qualificou o discurso de conservador, mas que importam os "ismos" quando as empreitadas são para serem efectivas antes de tudo. Galvanizando em época de dificuldade e regressão relativa para a América, lembrou, finalmente, que foi outrora com o desaire e a ameaça do Sputnik que, por isso mesmo, se caminhou para a Lua. Foi um discurso de verdade nua, crua e dura para daí chegar à confiança no futuro.

Apreciei igualmente, agora num registo totalmente despojado de retórica, a entrevista que referi de Timothy Geithner. Para os esquecidos, o Teixeira dos Santos deles (nota: como achei a prosa até aqui muito densa, este "intermezzo" foi para descomprimir e ir à casa de banho). Mais uma vez, um fluxo verbal cheio de factualidade fria, sem subterfúgios fátuos, antes fazendo os pontos de reflexão incidirem no difícil e importante, e admitindo sem complexo o que estava correndo mal e os pontos de preocupação. Falou de défice, dívida e desemprego, com o desapego de um analista e não de um político em permanente derrapagem, explicativa e orçamental, com tendência para a ficção científica. No final, a nota sobriamente optimista com suporte factual e argumentativo indesmentível, ficando-se com a segurança que a luz ao fundo do túnel, nos Estados Unidos, não é como em Portugal cortada por falta de verba para electricidade.

Estava eu reconciliado com a política, após estas nossas deploráveis eleições de vitríolo, difamação e azedume, quando tive a infeliz ideia de ouvir o execrável Sócrates no debate quinzenal da Assembleia da República, sem dúvida denunciando uma preocupante tendência masoquista, porque ainda não consigo ouvir o homem levando para a boa disposição os números que exibe.

O excerto que me assombrou ocorreu quando veio ao debate um relatório do FMI em que a instituição duvidava de que Portugal conseguisse alcançar o défice estimado para 2012, bem como para os anos seguintes. Eu bem compreendo que qualquer político lutasse pela sua dama e defendesse, até em sonata, a bondade da sua contabilidade e capacidade previsional. Mas com Sócrates isso seria pedir o impossível, e assim passou imediatamente ao contra-ataque apopléctico, dizendo que não tinha lições a receber da dita instituição - ele que até o "Borda dÀgua" lhe daria jeito consultar mais vezes - e avançou, preto no branco, para tudo sair mais colorido, que o défice de 2010 ia ser cumprido por excesso (hosana, Fundo de pensões da PT), que o País estava a crescer (os vígaros do INE dizem que o 4.º trimestre foi de contracção) e que a execução orçamental ia sair exacta (como se tem visto de mês para mês).

Um vendedor de carros em 2.ª mão do tipo casaco aos quadrados e gravata roxa diz o que diz porque pressupõe a ignorância do interlocutor. O modo como o PM trata o País é insultuoso, nunca diz a verdade e, por isso, nunca nos fará ver a luz ao fundo do túnel. Então, não há saída para a crise? Com esta gente, há, sim, mas é de Vilar Formoso em diante.


Advogado, autor de "Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). fbmatos1943@gmail.com
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