Notícia
A aventura começou ontem
Em provas verticais nem sempre sentimos diferenças entre uma colheita e outra. São as chamadas verticais secantes. Com a linha Grande Reserva da Quinta Nova, isso não acontece. Respeita-se aquilo que o tempo dá.
14 de Outubro de 2017 às 13:15
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Não se sabe com rigor se foi a baronesa Philippine de Rothschild a garantir que "o negócio do vinho é algo bastante fácil: só os primeiros 200 anos é que custam". Pouco importa. O que interessa é que a frase é de belo efeito. E certeira.
Recentemente, a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo organizou uma interessante prova vertical da sua marca de topo: o Quinta Nova Grande Reserva. Agora, reparem nisto. A quinta do século XVIII está na posse da família Amorim há 18 anos, mas, para a tal prova, Luísa Amorim e o enólogo Jorge Alves só apresentaram nove colheitas entre 2005 e 2015.
De certa maneira, os jornalistas que participaram no evento são uns felizardos porque, a partir da prova destes e de outros vinhos de diferentes produtores, testemunham a evolução dos vinhos DOC Douro em muito pouco tempo. E isso é didáctico.
A prova dos Quinta Nova Grande Reserva (tintos que testemunham um trabalho apurado na procura das melhores uvas de cada micro terroir da propriedade) revelou diferenças que - anos climáticos à parte - se devem também aos enólogos que passaram pela adega e às selecções de castas e parcelas ao longo do tempo.
Confesso que, à partida, estava à espera de sentir algum peso excessivo da Touriga Nacional ou, ainda, a presença das notas vincadas do carvalho nalgumas colheitas, mas tal não aconteceu.
Logo a abrir chegou-nos um Grande Reserva 2005 com algumas notas de evolução, é certo, mas ainda cheio de vigor, mineralidade e tensão na prova de boca, com taninos bastante secos. Fantástico. E se o 2006 revelou mais estrutura, mais peso e doçura, o 2007 regressa com uma profundidade notável em matéria de aromas e sabores (flores, fruta, mas também especiarias), sendo que o 2008 leva-nos para o perfil do 2005 (vegetal, mineral e seco).
A colheita de 2009 está toda mais domada, mais redonda, com notas de flores e frutos pretos, escondendo-se um pouco porque logo a seguir damos de caras com o mítico tinto de 2011 (em 2010, não se engarrafou Grande Reserva), todo ele concentradíssimo de fruta, volume e extracção, com doçura e raça ao mesmo tempo.
Para a maioria dos provadores com muitos anos nesta vida, a colheita de 2011 é sinónimo a perfeição. Nada se lhe compara, falemos de um pequeno produtor do Baixo Corgo ou de uma casa consagrada do Douro Superior. Por acaso, e quando provo vinhos da colheita de 2012 - como por exemplo o Quinta Nova Grande Reserva - fico muito mais fascinado com tais tintos mais frescos, menos brutos e mais elegantes - com umas notas fantásticas de frutos não enjoativos.
Sempre que posso provo, em simultâneo, vinhos de 2011 e 2012 de um mesmo produtor para perceber que caminhos trilham os vinhos. Pode ser que a colheita de 2011 esteja a comportar-se à laia de Porto Vintage, fechando-se nesta fase para se revelar mais tarde. Pode ser. Mas, por enquanto, sinto mais atracção pelos 2012.
A prova lá seguiu com a colheita de 2013 (mais fechada, com notas de barrica e fruta à mistura), para terminar em grande com um 2015 que, em prova cega, não enganaria um principiante. O vinho cheira a Touriga Nacional e a Douro por todo o lado, dando por vezes a sensação de estarmos perante um clássico Vintage.
À conversa sempre humorada e pedagógica com os jornalistas, Jorge Alves dizia-nos que, nesta fase, tem muito bem definidas as parcelas de vinha que produzem as uvas perfeitas para o Grande Reserva. Ele sabe disto a potes. Mas quando pensamos nas dinâmicas do negócio, nas modas e nesse clima que flipou de vez, é evidente que a sua procura pela perfeição é interminável.
Duas coisas são certas. Primeiro, a prova da Quinta Nova teve a virtude de mostrar que não é desejo da equipa liderada por Luísa Amorim fazer tintos para imitar colheitas anteriores. Segundo, dos tais 200 anos difíceis, dezoito estão bem superados. Só faltam 182 com este rumo.