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Transição climática: Europa sozinha tem pouco impacto no mundo

Nobel da Economia defende que a transição climática é um trabalho global que deve envolver todos os países, sobretudo os emergentes. Apesar dos desafios Joseph Stiglitz acredita que há oportunidades de crescimento económico, tal como aconteceu há duas décadas com os telemóveis.

Joseph Stiglitz diz que a Europa deve criar “clusters” industriais fortes em resposta à “invasão” da China.
Joseph Stiglitz diz que a Europa deve criar “clusters” industriais fortes em resposta à “invasão” da China. Duarte Roriz
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Não há balas de prata, não há soluções únicas, nem tão-pouco respostas unilaterais que resolvam a crise climática em que o planeta já se encontra. Para Joseph Stiglitz o fenómeno é global e exige a cooperação de todos os países, sobretudo das economias emergentes e em desenvolvimento, envolvendo o público e o privado, porque, defende, não há tempo a perder.

Para o economista, a Europa está na vanguarda, ao contrário dos Estados Unidos - onde a questão das alterações climáticas "está muito politizada" - e, embora seja uma referência, o impacto efetivo das politicas comunitárias acaba por ser diminuto, defendeu o Nobel da Economia na Grande Conferência da Sustentabilidade 20 | 30, do Negócios, que decorreu esta terça-feira, na Nova SBE, em Carcavelos.

A agenda do clima, tanto da Europa como dos EUA, tem de envolver os países emergentes.
"O mais importante para a Europa ter em conta, e que é preciso lembrar sempre, é que mesmo que o sucesso seja total em fazer a transição verde e tornar-se neutra em carbono em 2050, terá pouco impacto no mundo". E porquê? Stiglitz socorre-se da história para explicar o que está em causa. "A maioria das emissões, hoje, vem dos mercados emergentes e dos países em vias de desenvolvimento - quando historicamente era proveniente das nações industrializadas - pelo que a agenda do clima, tanto da Europa como dos EUA, tem de os envolver."

O Nobel da Economia acredita que Bruxelas até tem reconhecido que o problema é global impondo regras mais apertadas, designadamente na importação de produtos agrícolas como óleo de palma ou o cacau obtidos à custa da desflorestação. Outro exemplo é o mecanismo de ajustamento fronteiriço que impõe um preço de carbono a determinadas mercadorias adquiridas fora da UE para evitar que a industria europeia transfira a produção para países com práticas climáticas menos ambiciosas.

Solução [para crise climática] é cooperação global
No entanto, a ação europeia também está a criar "ressentimento" nos países em desenvolvimento que acabam por ter limitações à atividade económica. Stiglitz cita o caso das tecnologias verdes - um monopólio das grandes potencias - que, como é intensivo em capital e não em mão de obra, cria uma desvantagem para as nações mais pobres. Outro ponto, assinalou é que muitas regras ambientais são impostas de forma unilateral, sem olhar às diferenças e circunstâncias destas economias, contrariando o espírito do Protocolo de Quioto. "A solução passa pela cooperação global", insistiu o economista norte-americano. E qual a solução? Criar "acordos que promovam o desenvolvimento sustentável dos recursos dos países em desenvolvimento"; "promover a sua participação na cadeia de valor" e incluí-los "não só na partilha de tecnologia, mas também na produção conjunta".

Como os telemóveis há 20 anos

Dirigindo-se a uma plateia de gestores e empresários, Stiglitz sossegou os que receiam que a transição climática atrase o desenvolvimento económico: "A transição verde traz uma oportunidade para repensar a economia e pode acelerar o crescimento. Tanto do lado da procura, como da oferta". E explicou porquê. "Os empregos da transição climática podem preencher o vazio criado pela inteligência artificial", exemplificou, apontando o "desenvolvimento de novas tecnologias", "a inovação notável" nas energias renováveis e o seu traço descentralizador. "Abre-nos crescentes oportunidades tal como aconteceu com o surgimento dos telemóveis há 20 anos", afirmou.

A mudança para uma economia sustentável tem uma grande exigência de investimento, havendo necessidade de criar incentivos para dirigir o capital para estes novos projetos. Stiglitz sugere a criação de instituições internacionais que possam colmatar esta falha de mercado, à semelhança do que aconteceu com o Banco Mundial depois da II Grande Guerra. "Os investimentos que estamos a fazer são de longo prazo pelo que, se canalizados de forma errada, impossibilitar-nos-ão de inverter a tendência."

O regresso da política industrial

Num momento em que o Presidente chinês está na Europa para uma operação de charme num dos mercados mais importantes, Joseph Stiglitz alinha com Bruxelas na necessidade de criar "clusters" industriais fortes em resposta à "invasão" da China em setores críticos, como as telecomunicações, energia e industria automóvel.

O Nobel da Economia defende políticas industriais, mas sem pôr em causa a cooperação global, como aconteceu nos Estados Unidos com a administração Trump, mas também com Joe Biden e o Inflation Reduction Act (IRA, na sigla inglesa), pensado para fortalecer e proteger a capacidade de produção norte-americana, sobretudo nos investimentos verdes.
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