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Investimento fechou 2024 em queda, mas famílias apoiaram subida forte no PIB
Último trimestre do ano passado ficou também marcado por uma quebra nas importações que permitiu o regresso da procura externa a terreno positivo.
A forte subida do PIB na reta final de 2024, com um crescimento em cadeia de 1,5% que permitiu a superação da meta de crescimento anual do Governo, fica marcada pela aceleração no consumo das famílias e também pelo regresso da procura externa líquida a terreno positivo devido a uma diminuição das importações.
Já o investimento, cuja aceleração é esperada em 2025, chegou ao final do ano passado em queda e no nível mais baixo desde o arranque de 2023.
O Instituto Nacional de Estatística publica nesta sexta-feira os dados mais detalhados para a evolução da economia no final do ano e para o conjunto de 2024, confirmando uma variação em cadeia no PIB de 1,5% no quarto trimestre e um crescimento médio anual de 1,9% já antecipada em dados preliminares no início de janeiro.
Os valores, recorde-se, superaram as previsões do Governo de um crescimento anual da economia de 1,7% no ano passado e permitiram uma base forte de crescimento para o arranque de 2025, com o ministro das Finanças a antecipar já que será possível ver o PIB subir 2,5% neste ano.
Em grande medida, a revisão em alta - de 2,1% para 2,5% - ocorre devido ao chamado "carry-over," o efeito de arrastamento que um maior volume do PIB alcançado no final do ano produzirá, por si, ao longo deste ano num cenário sem contração económica (valerá à partida 1,3% de subida anual do PIB). Mas o Governo mostra-se confiante também de que haverá uma maior aceleração, com a meta de Joaquim Miranda Sarmento a exigir crescimentos trimestrais médios em torno de 0,8%.
Os dados publicados pelo INE mostram, para já, que grande parte do crescimento verificado no final de 2024 fica a dever-se à melhoria no saldo externo de bens e serviços, com uma redução nas importações face ao trimestre anterior de 1,4% ao mesmo tempo que as exportações recuperaram ligeiramente, subindo 0,7%. Com esta diferença, a procura externa líquida voltou a terreno positivo e acaba por explicar dois terços da melhoria em cadeia do PIB no quarto trimestre do ano passado.
Já a procura interna acabou por ter um contributo menor, muito influenciado por uma redução no investimento, mas com os gastos das famílias a acelerarem. E, notavelmente, na componente de bens duradouros - as chamadas compras importantes, como automóveis, mobiliário ou eletrodomésticos, entre outros - que tinham estado em queda durante toda a primeira metade de 2024.
Despesa das famílias com maior subida desde o arranque de 2022
Na dinâmica de consumo do final do ano, os gastos das famílias aceleraram de um crescimento de 0,8% para 2,9%, no maior crescimento trimestral observado desde o primeiro trimestre de 2022, no início do choque inflacionista.
A aceleração foi sobretudo forte nos bens duradouros, onde as despesas de consumo final das famílias subiram 7,2%. Nos bens não duradoros e serviços também houve um maior ritmo de gastos, com um aumento em cadeia de 2,5%.
Já o investimento, palavra do ano escolhida pelo Governo, terminou o ano ao nível mais baixo desde o início de 2023, caindo 6% no final do ano quando se tem em conta também stocks, ou variações de existências. A redução forte é associada pelo INE aos fluxos de comércio internacional e teve um contributo negativo para a evolução do PIB.
Mas, também a formação bruta de capital fixo, sem impacto da gestão de stocks, desiludiu no quarto trimestre, caindo 1,7% face ao trimestre anterior e espelhando uma redução forte na compra de máquinas e equipamentos.
Os dados agora publicados quanto ao andamento da economia na transição do ano vêm assim sugerir dificuldades no levatamento do investimento que, no conjunto de 2024, abrandou para um crescimento de 1,7% (2,3% de subida na formação bruta de capital fixo).
Em contrapartida, o consumo privado acelerou significativamente, para 3,2% de crescimento anual, mas ainda sem que os gastos fortes em compras importantes no final do ano tenham evitado um abrandamento anual na despesa com bens duradouros, para 1,6%. A aceleração no conjunto do ano fica ainda a dever-se a um maior aumento de gastos com serviços e bens correntes, incluindo aliamentação, numa subida anual de 3,4%.
O consumo público, outra componente da procura interna, também ganhou ritmo em 2024, subindo 1,1%.
Do lado da procura externa, o ano passado registou uma subida real das exportações em 3,4%, que abrandaram, enquanto as importações aumentaram 4,8%, em aceleração face ao ano anterior.
Os dados anuais do PIB publicados pelo INE nesta sexta-feira dão também conta daquela que foi a evolução do emprego e da produtividade em 2024. Segundo estes, o crescimento do emprego remunerado abrandou de 2,8% para 1% no último ano, tal como o das horas trabalhadas (de 1,9% para 0,5%).
A produtividade também perdeu ritmo, com o INE a indicar que houve um aumento residual de 0,3% na produtividade medida pelo rácio entre o PIB em volume e o número de pessoas empregadas e de apenas 0,7% quando se tem em conta a relação do PIB com o númer de horas trabalhadas.