Notícia
BdP revê crescimento deste ano em alta ligeira, mas espera abrandamento em 2026
Projeção para este ano é de uma subida do PIB em 2,3%, ligeiramente abaixo das expectativas do Governo, seguindo-se perda de ritmo até 2027. Tarifas trazem incerteza, mas crise política não deve penalizar economia.
O Banco de Portugal (BdP) reviu em alta ligeira as previsões de crescimento da economia portuguesa, mas mantém ainda expectativas aquém daquelas que têm vindo a ser avançadas pelo ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, que já admitiu uma subida do PIB em 2,5% neste ano. E antecipa abrandamento a partir de 2026.
O Boletim Económico de março da instituição estima agora que que no ano passado a economia tenha avançado 1,9% em termos reais, e projeta um crescimento de 2,3% para 2025. Já para 2026, é esperado abrandamento, com a variação prevista no PIB a cair para 2,1%, abaixo daquela que era a anterior projeção do BdP, seguindo-se nova perda de velocidade para 1,7% no ano seguinte.
As anteriores previsões do BdP, apresentadas em dezembro, estimavam um crescimento do PIB de 1,7% em 2024, apontando para uma ligeira aceleração da economia neste ano, para 2,2%, apoiada pela aceleração do investimento mas com o consumo privado a perder alguma velocidade. Para 2026, a expectativa era de manutenção do ritmo da economia, em nova subida de 2,2%.
A revisão em alta no crescimento previsto para este ano beneficia do efeito de arrastamento dado pela variação do PIB no quarto trimestre de 2024, com um crescimento em cadeia de 1,5%. Contudo, as expectativas para a evolução do investimento são agora mais pessimistas, com previsão de uma subida de 3,9% na formação bruta de capital fixo quando antes o BdP estava a apontar para 5,4%. Também a dinâmica prevista para as exportações é agora ligeiramente inferior àquela que o BdP esperava há três meses.
Na apresentação do Boletim, nesta quinta-feira, o governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, indicou que as previsões admitem uma associação direta entre a aceleração do consumo privado do final de 2024 e os estímulos orçamentais dados pelo Governo a partir de setembro - nomeadamente, com reduções temporárias profundas nas retenções de IRS por efeito de acertos após novo alívio do imposto aprovado no Parlamento.
A evolução, contudo, não será sustentável, e pese embora a revisão em alta para o conjunto do ano a equipa económica do BdP acabou por rever em baixa as previsões para os trimestres iniciais de 2025, ao antecipar uma abrandamento significativo no rendimento disponível das famílias (também por impacto da diminuição esperada nos reembolsos de IRS neste ano).
"O início do ano está a mostrar-se mais difícil do que aquilo que prevíamos em dezembro", reconheceu Centeno.
Apesar de tudo, há ainda uma dinâmica positiva em que a economia cresce acima do potencial e igualmente acima da Zona Euro, como salienta o BdP, mas agora num quadro de forte incerteza, sobretudo determinada pelas políticas da Administração de Donald Trump, nos Estados Unidos, com o BdP a realizar neste boletim um exercício de projeção sobre impacto de tarifas adicionais alargadas às importações da União Europeia que admite uma penalização para a variação do PIB nacional de cerca de 1 ponto percentual neste ano.
"A incerteza que se instalou nos últimos meses sobre decisões geopolíticas, e geoeconómicas, tem uma origem muito determinada e tem que ver com as novas medidas de política da administração norte-americana. E nos indicadores que temos vindo a observar percebe-se a erupção de forma muito clara sobre a incerteza dos seus impactos (...) e tudo o que isto significa para as decisões dos agentes económicos", indicou Mário Centeno.
Já a atual crise política, com eleições antecipadas em maio, será um fator pouco determinante para a evolução da economia, segundo o governador. "Melhorar não melhora. Os agentes económicos adoram previsibilidade, capacidade de projetar o futuro. A variável que mais sofre é o investimento", reconheceu. Contudo, disse, "o que temos visto ao longo destes anos é que a economia tem tido condições de resiliência que são positivas e que não antecipamos que venham a ser postas em causa".
Nas previsões deste boletim económico, além da revisão em alta ligeira no crescimento, a equipa do Banco de Portugal também eleva a previsão de inflação para este ano, apontando agora para 2,3% de variação média anual no índice harmonizado de preços no consumidor (2,1% nas previsões feitas em dezembro). Para os anos seguintes, mantém-se a previsão de 2% de subida média, alinhada com a meta de estabilidade de preços.
Também o crescimento do emprego é revisto em alta, com expectativa de um aumento da população empregada em 1,3% neste ano, acima dos 0,8% antecipados no último quadro de projeções da instituição. As previsões para a taxa de desemprego mantêm-se, apontando para 6,4% ao longo de todo o horizonte até 2027.