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Como combater os demagogos populistas

Os políticos centristas que querem eclipsar os demagogos devem seguir um caminho muito estreito. Se delinear esse caminho parece difícil, é indicativo da magnitude do desafio que esses políticos enfrentam.

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Numa conferência recente em que participei, fiquei sentado ao lado de um proeminente especialista em política comercial americana. Começámos a falar sobre o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), que o presidente Donald Trump culpa pelos problemas dos trabalhadores americanos e está a tentar renegociar. "Nunca considerei o NAFTA um grande acordo", disse o economista.

 

Fiquei estupefacto. O especialista foi um dos defensores mais proeminentes do NAFTA quando o acordo foi concluído há um quarto de século. Ele e outros economistas do comércio desempenharam um papel importante na venda do acordo ao público americano. "Apoiei o NAFTA porque achava que abriria caminho para novos acordos comerciais", explicou o meu companheiro.

 

Algumas semanas depois, estava num jantar, na Europa, em que o orador era um antigo ministro das Finanças de um país da Zona Euro. O tema era o crescimento do populismo. O ex-ministro, que já deixou a política, teceu duras comentários sobre os erros que considera que a elite política europeia fez. "Nós acusamos os populistas de fazerem promessas que não podem cumprir, mas devemos voltar essa crítica para nós próprios", disse ele.

 

Antes disso, durante o jantar, discuti o que descrevo como um trilema, pelo qual é impossível ter soberania nacional, democracia e hiper-globalização ao mesmo tempo. Devemos escolher dois dos três. O ex-político falou apaixonadamente: "Pelo menos os populistas são honestos. São claros sobre a escolha que estão a fazer; querem o Estado-nação, e não a hiper-globalização ou o mercado único europeu. Mas nós dissemos às pessoas que poderiam ter as três coisas, em simultâneo. Fizemos promessas que não podíamos cumprir".

 

Nunca saberemos se uma maior honestidade por parte dos políticos e tecnocratas convencionais nos teria poupado o surgimento de demagogos nativistas como Trump ou Marine Le Pen, em França. O que é claro é que a falta de sinceridade no passado teve o seu preço. Custa aos movimentos políticos do centro a sua credibilidade. E tornou mais difícil para as elites preencher o fosso que os separa das pessoas comuns que se sentem abandonadas pelo poder estabelecido.  

 

Muitas elites não conseguem entender porque é que os mais pobres ou a classe trabalhadora votam numa pessoa como Trump. Afinal, as políticas económicas defendidas por Hillary Clinton eram-lhes mais favoráveis. Para explicar o aparente paradoxo citam a ignorância, a irracionalidade ou o racismo desses eleitores.

 

Mas há outra explicação, que é totalmente consistente com a racionalidade e o interesse próprio. Quando os políticos convencionais perdem a sua credibilidade, é natural que os eleitores desconsiderem as promessas que fazem. Os eleitores têm uma maior probabilidade de ser atraídos para os candidatos que possuem credenciais anti-sistema e dos quais se espera que se afastem das políticas prevalecentes.

 

Na linguagem dos economistas, os políticos centristas enfrentam um problema de informação assimétrica. Eles afirmam ser reformadores, mas porque é que os eleitores devem acreditar em líderes que não parecem diferentes da leva anterior de políticos que promoveram exageradamente os ganhos da globalização e minimizaram as suas queixas?

 

No caso de Clinton, a sua estreita associação com a tendência dominante globalista do Partido Democrata e os seus laços com o sector financeiro agravaram claramente o problema. A sua campanha prometeu acordos comerciais justos e rejeitou o apoio à Parceria Transpacífico (TPP), mas será que o sentia de coração? Afinal, quando era secretária de Estado dos EUA, ela apoiou fortemente a TPP.

 

Isto é o que os economistas chamam de equilíbrio agregador. Os políticos convencionais e reformistas parecem-se uns com os outros e, portanto, provocam a mesma resposta de grande parte do eleitorado. Perdem votos para os populistas e demagogos cujas promessas de agitar o sistema são mais credíveis. Enquadrar o desafio como um problema de informação assimétrica também sugere uma solução. Um equilíbrio agregador pode ser interrompido se os políticos reformistas puderem "dar sinais" aos eleitores sobre o seu "verdadeiro tipo".

 

A sinalização tem um significado específico neste contexto. Significa envolver-se num comportamento que tem um preço; um comportamento que é suficientemente extremo para um político convencional não querer imitá-lo, mas não tão extremo ao ponto de transformar o reformador num populista e frustrar o objectivo. Para alguém como Hillary Clinton, assumindo que sua conversão era real, poderia significar anunciar que ela não aceitaria mais um centavo de Wall Street ou não assinaria outro acordo comercial se fosse eleita.

 

Por outras palavras, os políticos centristas que querem eclipsar os demagogos devem seguir um caminho muito estreito. Se delinear esse caminho parece difícil, é indicativo da magnitude do desafio que esses políticos enfrentam. Cumpri-lo exigirá provavelmente novos rostos e políticos mais jovens, que não estejam contaminados com as visões globalistas e fundamentalistas de mercado dos seus predecessores.

 

Também exigirá um reconhecimento muito claro de que os políticos são eleitos para perseguir o interesse nacional. E isso implica uma vontade de atacar muitas das vacas sagradas do poder estabelecido - particularmente a liberdade que se dá às instituições financeiras, a tendência para as políticas de austeridade, a visão distorcida do papel do governo na economia, o movimento livre de capital em todo o mundo e fetichização do comércio internacional.

 

Para os mais convencionais, a retórica destes líderes parecerá extrema e dissonante. Contudo, "roubar" os eleitores aos demagogos populistas pode não exigir menos do que isso. Esses políticos devem oferecer uma concepção inclusiva, e não nativa, da identidade nacional, e as suas políticas devem permanecer dentro das normas democráticas liberais. Tudo o resto deve estar sobre a mesa.

 

Dani Rodrik, professor de Economia Política Internacional na John F. Kennedy School of Government da Universidade de Harvard, é o autor de Economics Rules: The Rights and Wrongs of the Dismal Science.

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

 

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