Outros sites Medialivre
Notícia

Indústria 5.0: Portugal acelera, mas ainda enfrenta barreiras

Portugal está a acompanhar a transição para a Indústria 5.0 mas enfrenta desafios no investimento, na qualificação da força de trabalho e na colaboração entre empresas e instituições.

18 de Fevereiro de 2025 às 14:00
A capacitação tecnológica e os apoios à inovação são peças-chave para a Indústria 5.0, mas o grande desafio para as empresas nacionais é o investimento. Getty Images
  • Partilhar artigo
  • ...

No verão de 2024, a Comissão Europeia adotou "oficialmente" a nova versão da revolução industrial. Num relatório publicado pela Direção-Geral de Investigação e Inovação, o conceito de Indústria 5.0 foi apresentado como algo que irá redefinir o futuro da produção. Se a Indústria 4.0 ficou marcada pela automação e pela integração digital, a nova visão acrescenta um fator essencial à equação — o ser humano. Sustentabilidade, resiliência e uma abordagem mais humanizada são os pilares desta transformação, apontando para um modelo produtivo que alia tecnologia de ponta ao bem-estar social e ambiental.

O denominado "Roteiro das Tecnologias Industriais da União Europeia sobre Investigação e Inovação Centrada nas Pessoas para o Setor Transformador" identifica várias barreiras para alcançar a visão da Indústria 5.0 centrada no ser humano. Uma das principais é a lenta absorção de tecnologias avançadas no setor de fabricação da UE, em parte devido aos elevados custos e à complexidade de desenvolver e integrar novos sistemas. Startups em países como Itália e Alemanha estão a mostrar potencial, evidencia o roteiro, especialmente no desenvolvimento de tecnologias como a robótica, mas, no geral, a Europa continua a ficar atrás de outros players globais.

A inovação tecnológica exige a aquisição de novas competências, escalando geralmente para funções profissionais mais apelativas.Rafael Campos Pereira
Vice Presidente da AIMMAP - Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal

É neste contexto que instituições como o INESC TEC estão a desenvolver soluções que traduzem esta visão em aplicações concretas. No iiLab - Industry and Innovation Lab, por exemplo, estão em curso projetos que integram robótica colaborativa, realidade aumentada e inteligência artificial, numa lógica de interação homem-máquina. "Temos vindo a desenvolver soluções de células robóticas colaborativas que procuram aproveitar o melhor de cada um dos componentes do sistema: a repetibilidade inerente aos robôs, e a capacidade de adaptação dos humanos". Um destes projetos envolve um sistema de realidade aumentada que projeta, diretamente sobre a bancada de trabalho, instruções para o operador, facilitando a execução de tarefas complexas e melhorando a eficiência do processo produtivo.

Combater a escassez de mão de obra

Outros desafios, como a escassez de mão de obra para funções repetitivas e fisicamente exigentes, também estão a ser abordados através da inovação tecnológica. Um dos exemplos mais relevantes é o desenvolvimento de robôs autónomos móveis (AMR) para operações logísticas, como a movimentação de mercadorias. Muitas empresas enfrentam dificuldades em recrutar operadores para empilhadores, uma função que, além de exigente fisicamente, obriga muitas vezes a horários noturnos. A solução do INESC TEC passa por veículos autónomos que podem operar 24/7, mas com a possibilidade de serem controlados remotamente por um operador humano em caso de necessidade, através de um sistema de teleoperação baseado em realidade virtual. "Assim, consegue-se rapidamente tirar um veículo da situação de falha, diminuindo significativamente o seu tempo de paragem".

Além da robótica colaborativa e dos sistemas autónomos, a aposta na inteligência artificial está a permitir avanços significativos na inspeção de qualidade. "Estamos a explorar o uso de óculos de realidade aumentada integrados com modelos de aprendizagem profunda, com o objetivo de auxiliar o operador humano a permitir a deteção de defeitos em tempo real, facilitando a inspeção em áreas de difícil acesso e permitindo aos operadores ajustar a posição da peça para reduzir reflexos".

Acreditamos que as ferramentas deste metaverso darão início a uma nova era industrial, na qual os problemas do mundo real serão resolvidos digitalmente. Luís Bastos
Digital Industries Siemens Portugal

Para os investigadores do INESC TEC, a combinação entre IA, robótica e realidade aumentada está a acelerar a modernização da indústria, tornando-a mais flexível, eficiente e sustentável. "As empresas que investem nestas tecnologias ganham vantagem competitiva ao acelerar a inovação e responder aos novos requisitos do mercado com mais rapidez e precisão. Além disso, estas ferramentas podem ser integradas com outras soluções, como gémeos digitais e blockchain, criando ecossistemas industriais altamente conectados e preparados para o futuro", afirmaram Manuel Santos Silva e Luís Freitas Rocha.

Novas abordagens tecnológicas

A transição para a Indústria 5.0 exige que as empresas adotem novas abordagens tecnológicas, e a Siemens tem sido um dos principais impulsionadores desse movimento em Portugal. Luís Bastos, responsável pela Digital Industries da Siemens Portugal, destaca que uma das grandes apostas da empresa para esta nova era industrial é o metaverso industrial. "Acreditamos que as ferramentas deste metaverso darão início a uma nova era industrial, na qual os problemas do mundo real serão resolvidos digitalmente", explica Luís Bastos. Para o responsável, a tecnologia permitirá que as empresas modelem, criem protótipos e testem soluções em tempo real, num ambiente digital imersivo e baseado na física, antes de investirem recursos físicos e humanos.

Outra área crítica para a transição é a Inteligência Artificial Industrial, aplicada a setores essenciais como a indústria, as infraestruturas, a mobilidade e a saúde. Luís Bastos destaca a parceria global entre a Siemens e a Microsoft, que resultou no lançamento do Siemens Industrial Copilot, um assistente baseado em IA generativa, concebido para melhorar a colaboração homem-máquina. "Esta solução tem o potencial de revolucionar a forma como as empresas concebem, desenvolvem, fabricam e operam", sublinha.

O principal desafio reside na capacitação das empresas para investir mais em inovação.Rafael Rocha
Diretor Geral da CIP - Confederação Empresarial de Portugal

A adaptação a estas novas tecnologias é um desafio constante para as indústrias e os seus colaboradores. Para facilitar esse processo, a Siemens lançou em 2022 a Siemens Xcelerator, uma plataforma de negócios aberta e digital que ajuda empresas de todas as dimensões a acelerarem a transformação digital de forma fácil e escalável. "Atualmente, esta plataforma conta já com cinco parceiros nacionais", revela Luís Bastos.

Além disso, a Siemens tem investido na criação de espaços de inovação, como os dois i-Experience Centers X.0 em Portugal, concebidos para apoiar o desenvolvimento de projetos de digitalização e modernização da indústria nacional, promovendo a inovação e a cocriação de novas soluções.

A aplicação destas tecnologias já está em curso em vários setores. No segmento da energia, a Siemens está a apoiar a Cabelte na descarbonização da sua atividade, com soluções que otimizam o consumo energético e reduzem custos de manutenção. No setor das águas, a empresa desenvolveu um projeto para a EPAL e para a Águas do Vale do Tejo, criando um centro de controlo de água, energia e monitorização de emissões de gases com efeito de estufa, único no país, que permitirá medições mais rigorosas e em tempo real dos consumos. Nos terminais portuários, desde Viana do Castelo a Sines, a modernização passou pela introdução de sistemas inteligentes regenerativos, que asseguram poupanças energéticas de até 60% e otimizam a gestão dos movimentos das cargas, reduzindo os tempos de latência dos navios.

Setor metalúrgico aposta na inovação

A transformação da indústria portuguesa rumo à Indústria 5.0 não se limita a setores específicos – é um movimento transversal, onde a inovação e a digitalização desempenham um papel crucial. No setor metalúrgico e metalomecânico, essa evolução é particularmente evidente. Rafael Campos Pereira, vice-presidente executivo da AIMMAP - Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal, sublinha que a inovação é uma prioridade para as empresas do setor, não apenas pelo impacto direto na produtividade – que já está acima da média nacional – mas também pelo seu papel estratégico no posicionamento global. "As empresas do setor apresentam elevados índices de investimento em inovação e tecnologia, conseguindo assim escalar na cadeia de valor e posicionarem-se como fornecedoras qualificadas de clusters muito sofisticados", explica. Esta inovação materializa-se em várias frentes: no desenvolvimento de novos produtos, na otimização dos processos produtivos e na adoção de estratégias inovadoras.

Os programas de apoio à inovação são fundamentais para acelerar a adoção da Indústria 5.0 em Portugal, promovendo uma transição sustentável, resiliente e centrada no ser humano. António Grilo
Presidente da Agência Nacional de Inovação

Tecnologias como a automação, a digitalização, a manufatura aditiva, o ecodesign e a circularidade estão a ser progressivamente integradas, diz Rafael Campos Pereira, tornando os processos industriais mais eficientes, ágeis e sustentáveis.

Mas a adaptação à nova realidade industrial não se faz apenas com tecnologia – exige também um esforço na requalificação da força de trabalho. Rafael Campos Pereira destaca que a inovação tecnológica cria naturalmente novas necessidades de formação e, ao mesmo tempo, impulsiona a transição para funções mais apelativas e qualificadas. "As novas ferramentas tecnológicas, a inteligência artificial, entre outros, permitem criar um conjunto de instrumentos que potenciam uma formação mais ágil, mais à medida", sublinha.

Os sistemas de treino em ambientes virtuais são um dos exemplos dessa mudança, permitindo acelerar os processos de aprendizagem e aumentar a eficácia da formação. Além disso, estas soluções tornam o ensino mais personalizado e ajustado às necessidades específicas de cada empresa ou setor, facilitando a adaptação dos trabalhadores às exigências da Indústria 5.0.

Programas de apoio são preponderantes

Num papel não menos importante do que a inovação tecnológica e a requalificação da força de trabalho estão os programas de apoio, considerado como essenciais na aceleração desta transição. António Grilo, presidente da ANI – Agência Nacional de Inovação, sublinha que estes mecanismos são fundamentais para garantir uma mudança sustentável, resiliente e centrada no ser humano, alinhando-se com as prioridades europeias. "Os programas de apoio à inovação incentivam modelos produtivos circulares, tecnologias avançadas e a eficiência no uso de recursos, reforçando a competitividade das empresas", explica.

Entre os projetos mais relevantes, António Grilo destaca as Testbeds e os Polos de Inovação Digital, que promovem o teste e experimentação, a capacitação e a incubação de soluções digitais. No âmbito do PRR, a ANI participa na Missão Interface, que junta empresas, academia, CoLABs e Centros de Transferência de Tecnologia para desenvolver soluções focadas na segurança e ergonomia dos trabalhadores, alinhadas com o conceito human-centric da Indústria 5.0. Além disso, salienta o presidente, a agência integra a Comissão de Coordenação das Agendas Mobilizadoras e Verdes para a Inovação Empresarial, que, até 2030, pretende estimular a criação de novos produtos e serviços, contribuindo para a transformação estrutural da economia portuguesa e para o crescimento das exportações.

A nível europeu, Portugal tem beneficiado de financiamento através do Horizonte Europa, que segundo dados veiculados pela ANI já disponibilizou mais de 1,4 mil milhões de euros para projetos que visam cadeias de valor industriais neutras em carbono, circulares e digitalizadas. "Deste montante, Portugal captou cerca de 28,3 milhões de euros, traduzindo-se em 45 projetos financiados, nos quais participam 33 empresas", revela António Grilo. Entre os projetos em destaque estão o XR5.0, que explora o uso da realidade aumentada na Indústria 5.0, e o PROSPECTS 5.0, que analisa os fatores que impulsionam a transição industrial.

Para o presidente da ANI, os programas de apoio à inovação não só fornecem os recursos financeiros necessários, como também facilitam o acesso ao conhecimento técnico e aos incentivos fundamentais para que as empresas portuguesas adotem e integrem as tecnologias emergentes da Indústria 5.0.

Investir, mas também atrair talento

E se a capacitação tecnológica e os apoios à inovação são peças-chave para a Indústria 5.0, o grande desafio para as empresas portuguesas continua a ser o investimento. Rafael Rocha, diretor-geral da CIP - Confederação Empresarial de Portugal, sublinha que apenas através de um maior esforço financeiro será possível incorporar inovação em produtos, serviços e processos. No entanto, o investimento por si só não basta – é igualmente crítico encontrar, atrair e reter talento qualificado que torne essa inovação uma realidade. "Importa, também, que nos seus processos de inovação as empresas consigam interagir com a sua envolvente", afirma Rafael Rocha, sublinhando a necessidade de abrir a inovação empresarial a contributos vindos do exterior.

Clientes, fornecedores, concorrentes, universidades, centros tecnológicos e startups devem fazer parte de um ecossistema colaborativo, alerta o diretor-geral. No entanto, essa colaboração ainda enfrenta obstáculos estruturais. "A aproximação entre o mundo empresarial e o mundo académico, com códigos, culturas e linguagens ainda profundamente distintas, é basilar para o sucesso dos processos de inovação", reforça.

A dimensão das empresas portuguesas representa outro entrave. Muitas não dispõem da massa crítica necessária para garantir os recursos infraestruturais, financeiros e humanos indispensáveis à inovação. Apesar dessas limitações, a CIP tem vindo a intervir ativamente nesta área, promovendo o alinhamento entre automação e fator humano. Em 2019, a Confederação Empresarial de Portugal publicou o estudo O Futuro do Trabalho em Portugal, onde analisou o impacto da automação e a crescente importância da robótica e da inteligência artificial na economia.

Para Rafael Rocha, a criação de condições favoráveis ao investimento privado em inovação exige um forte compromisso das políticas públicas, tanto no acesso ao financiamento como na qualificação dos recursos humanos. "Um esforço que não poderá resumir-se a um aumento do número de anos de escolaridade da população", alerta. O desafio passa por um envolvimento ativo do setor privado e do governo na reconversão da força de trabalho, garantindo uma adaptação contínua às necessidades das empresas. Além disso, mercados de trabalho mais flexíveis podem facilitar essa transição, permitindo maior mobilidade dos trabalhadores entre empresas e setores.

Outro ponto essencial é a necessidade de estimular a inovação aberta. Para Rafael Rocha, as políticas públicas de apoio à inovação devem privilegiar projetos que fomentem a colaboração entre empresas e o sistema de Investigação e Desenvolvimento Tecnológico. "Temos de capacitar as estruturas de interface entre o mundo empresarial e o mundo académico e fomentar os efeitos de demonstração e de disseminação dos resultados de cada projeto apoiado no tecido empresarial", destaca.

A complexidade regulatória surge, também, como um entrave à inovação. O diretor-geral da CIP alerta para a necessidade de reduzir os custos de contexto e os obstáculos impostos por uma regulamentação excessiva, inconsistente e restritiva, que prejudica a passagem da inovação à comercialização e limita o crescimento das empresas inovadoras.

Para enfrentar estes desafios, a CIP está a relançar o seu Conselho Estratégico para a Economia Digital. "Um embrião de pensamento para partilha de propostas, sugestões e medidas", descreve Rafael Rocha. A agenda deste Conselho inclui temas estruturantes como infraestruturas, inovação, competências, empresas e o papel do Estado, sempre com o objetivo de transformar o perfil da economia portuguesa e preparar as empresas para os desafios que se avizinham.

Candidatura abertas ao Prémio Nacional de Inovação  As candidaturas ao Prémio Nacional de Inovação estão abertas até ao próximo dia 17 de abril. Para mais informações consulte aqui o site 
Mais notícias