Notícia
Um subcontinente em chamas
Uma vaga de protestos varreu a América do Sul. Os governos do Chile e do Equador tremeram e recuaram. A Bolívia saiu ainda mais dividida das eleições e Argentina e Colômbia vão a votos no domingo.
A América do Sul está em polvorosa. À extenuada e dividida Venezuela e à atormentada e militarizada Colômbia juntam-se agora muitos outros países. A Bolívia foi a votos dividida e saiu de lá bem pior.
Os argentinos mostraram o cartão amarelo ao governo de Macri em agosto e neste domingo poderão mostrar-lhe o vermelho. Os colombianos vão eleger os seus representantes locais no meio de uma campanha sangrenta.
No Equador e no Chile, os governos cedem perante a pressão popular e o Peru vai para eleições submerso numa crise institucional gravíssima.
Equador
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A braços com uma crise económica e um problema de financiamento, o governo liderado por Lenin Moreno pediu um empréstimo ao FMI que, em troca, exigiu as habituais medidas de austeridade orçamental. O corte nos subsídios aos combustíveis acabou por ser a gota de água que fez transbordar o copo da contestação social, liderada pelas comunidades indígenas. Os protestos foram muito violentos e acompanhados por saques e vandalismo e resultaram em vários mortos, centenas de feridos e muitos detidos. O governo acabou por recuar assinando um acordo com os líderes das comunidades indígenas, mas a situação permanece tensa.
Peru
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Conflito institucional leva a novas eleições
O Peru viveu uma crise institucional gravíssima e aguarda eleições. Martin Vizcarra, eleito Presidente em 2018, entrou em rutura com o Parlamento. Na origem do conflito está a nomeação de seis dos sete juízes do Constitucional que teriam de ser substituídos por parte do Parlamento e que o Presidente queria tornar mais transparente. Confrontado com a recusa dos deputados em aceitar as mudanças propostas, o Presidente - que era vice de Kuczynski que se demitiu depois se ver envolvido num caso de corrupção da Odebrecht - dissolveu o Parlamento. Este ripostou, acionando um mecanismo para o afastar e colocar no seu lugar a vice-presidente, mas esta ao fim de três dias decidiu renunciar. As eleições legislativas realizam-se em janeiro.
Chile
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18 mortos depois, Presidente Piñera recua
Se no Equador foi a supressão dos apoios aos combustíveis que espoletou os protestos, no Chile foi o aumento das tarifas do metro em Salvador. Mas tal como no Equador, também aqui o descontentamento tem raízes mais profundas.
Décadas de políticas neoliberais de privatização da Segurança Social e do ensino têm suscitado uma resistência crescente de segmentos importantes da população, que apontam o dedo ao agravamento das desigualdades no país. Depois de seis dias de protestos violentos e 18 mortos, o Presidente Sebastián Piñera pediu desculpa aos chilenos, recuou no aumento das tarifas do metropolitano e apresentou novos apoios sociais.
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Um país à beira do precipício
A Venezuela vive há vários anos em crise profunda. Milhões já saíram de um país profundamente dividido entre os apoiantes da revolução bolivariana iniciada por Chávez e a fragmentada oposição liderada por Guaidó. Numa economia muito dependente da exportação de petróleo, a queda do preço do crude revelou-se fatal. O país entrou em recessão, os preços dispararam e há relatos dramáticos de falta de bens básicos. Maduro iniciou o seu segundo mandato em 2018 após umas eleições cujos resultados não foram reconhecidos por grande parte da comunidade internacional.
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Um país debaixo dos escombros da guerra
O principal problema da Colômbia é bem antigo e diz respeito à violência, em grande parte fruto da guerra civil travada com poderosas guerrilhas, em particular as FARC. Em plena campanha eleitoral para as eleições regionais e locais, que se realizam este domingo, o país tem testemunhado um aumento da violência, com um balanço trágico em meados deste mês: sete candidatos assassinados; oito vítimas de atentados; um sequestrado e mais de 50 vítimas de ameaças, segundo um levantamento da Missão de Observação Eleitoral. O histórico acordo de paz com as FARC está tremido e o país está muito pressionado pela onda de imigrantes vindos da Venezuela.
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Governo decreta estado de emergência
Os bolivianos foram chamados às urnas no passado dia 20 de outubro. As sondagens davam a vitória a Evo Morales, o governante mais antigo do continente (desde 2006), mas sem maioria absoluta. Apesar da polarização política no país, a situação era pacífica. No entanto, a suspensão súbita da contagem de votos quando estavam apurados 84% dos boletins de voto à qual se seguiu a vitória com maioria absoluta de Morales levantou acusações de fraude eleitoral, seguindo-se confrontos violentos. A Organização dos Estados Americanos (OEA) aceitou auditar a contagem, mas entretanto o governo decretou o estado de emergência denunciando uma tentativa de golpe de Estado.
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A Argentina vai ter eleições este domingo e tudo indica que Cristina Kirchner, que liderou o país entre 2007 e 2015, voltará ao poder. Não como presidente, mas como número dois de Alberto Fernández, um político que assume um estilo mais moderado e que tem conseguido recuperar apoios perdidos pela antiga Presidente. A Argentina atravessa uma nova crise, com a economia a recuar, a inflação a disparar e o desemprego em dois dígitos. Maurício Macri pediu um empréstimo de 56 mil milhões de dólares ao FMI e as medidas de austeridade somadas ao aumento da pobreza e do desemprego aprofundaram ainda mais o desgaste da sua imagem junto da opinião pública.