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Nos últimos anos, Portugal tem demonstrado um dinamismo crescente no seu ecossistema de inovação. "Temos ótimas iniciativas que se têm vindo a fomentar e a florescer ao longo dos anos", destaca Paulo Reis. No entanto, apesar dos avanços, há ainda desafios a superar. O European Innovation Scoreboard continua a classificar Portugal como "inovador moderado". Isto significa que ainda há muito por fazer para consolidar um verdadeiro ecossistema de inovação nacional.
Os apoios multilaterais desempenham um papel fundamental na evolução da inovação empresarial, mas a sua aplicação na prática nem sempre é simples. "Conceptualmente, estes mecanismos funcionam", reconhece Paulo Reis. O desafio está na sua operacionalização, que pode ser complexa para as empresas. Ainda assim, a aposta nestes programas é crucial para modernizar infraestruturas, capacitar talentos e impulsionar a internacionalização. "Temos conseguido ajudar as empresas portuguesas a internacionalizarem-se, se calhar poderia ser de uma forma mais profícua, mas o importante é que se têm dado passos nesse sentido", acrescenta o responsável.
Desafios que travam a inovação
Para que Portugal continue a afirmar-se como um polo de inovação, é essencial um alinhamento entre o setor empresarial e as políticas públicas. Paulo Reis defende que "não basta que as empresas inovem", devendo o governo e os organismos públicos criar condições para fomentar novas oportunidades e "ajudar as empresas e outras entidades a terem oportunidades de melhorar os processos de inovação e obter financiamento".
Um dos principais desafios ao sistema de inovação é a incerteza em torno do SIFIDE (Sistema de Incentivos Fiscais de Investigação e Desenvolvimento Empresarial). "O SIFIDE termina este ano, em 2025, e não há uma mensagem clara sobre a sua continuidade, causando desconforto a quem tem de investir", refere este especialista. Por outro lado, há ainda muita burocracia que dificulta o acesso aos incentivos financeiros. Os processos poderiam ser mais ágeis para o dinheiro chegar mais rapidamente às empresas. Além disso, Paulo Reis considera que as constantes alterações às regras dificultam o planeamento, sendo que muitas empresas investem com base em determinadas expectativas que, mais tarde, podem não se concretizar, o que gera insegurança.
As PME são particularmente afetadas por estas dificuldades, uma vez que, segundo este responsável, não podem desviar a atenção do seu core business para navegar no mundo dos fundos europeus. Esse é um desafio que precisa de ser simplificado.
A retenção de talento é outro desafio crítico assinalado por Paulo Reis. "Andamos a investir na formação destes jovens e em torná-los engenheiros, mestres e doutorados altamente qualificados e, depois, não os conseguimos reter no nosso país", alerta.
Digitalização a duas velocidades
A transição digital é um fator determinante para a competitividade empresarial, mas a realidade das grandes empresas e das PME é bastante distinta. De acordo com Paulo Reis, as grandes empresas, regra geral, "ou estão alavancadas por aquilo que são planos de investimento a médio e longo prazo de grandes grupos, que têm de se tornar competitivos mundialmente e, por isso, investem obviamente naquilo que são os processos de eficiência e de produtividade, enquanto as PME portuguesas, por exemplo, não têm essa capacidade ainda instalada".
A digitalização, incluindo a adoção de inteligência artificial, é essencial para evitar a perda de competitividade face a outros mercados europeus. "Se não digitalizarmos os processos e as indústrias que temos, vamos perder competitividade relativamente aos outros países da Europa e do resto do mundo, porque realmente eles apostam cada vez mais, tanto na parte da digitalização dos processos como também na inteligência artificial", refere este responsável.
A verdade é que a inovação tecnológica continua a evoluir rapidamente, abrindo novas oportunidades para as empresas. Os gémeos digitais são apontados por Paulo Reis como uma inovação determinante na indústria e nos serviços, especialmente quando aliados à inteligência artificial. Outras áreas promissoras incluem cibersegurança, blockchain, biotecnologia e saúde digital.
Ajudas para dar o salto
A transformação digital é um dos grandes desafios das empresas portuguesas, e o Data CoLAB surge como um catalisador desse processo. Criado a partir de uma iniciativa da FI Group e da SGS, o laboratório colaborativo tem um objetivo claro: aproximar o setor empresarial do conhecimento científico e tecnológico para impulsionar a inovação. O projeto reúne vários parceiros, incluindo instituições de ensino superior e empresas tecnológicas, para acelerar a transformação digital através da gestão de dados. "Ajudamos empresas a fazer essa transformação digital dos seus processos e a ter depois os dados que possam ajudá-las a sustentar as decisões estratégicas que tenham de tomar", refere Paulo Reis.
Nos últimos anos, a FI Group ajudou mais de 3.600 entidades a aceder a incentivos que totalizam 1,5 mil milhões de euros, impulsionando investimentos superiores a 2 mil milhões de euros. Destaque para os investimentos em infraestruturas empresariais promovidos pelos municípios, que criaram espaços de acolhimento empresarial no interior do país, descentralizando a atividade económica. Também os bairros digitais comerciais ajudaram a modernizar pequenos negócios, aproximando-os dos consumidores.
No setor tecnológico, as agendas mobilizadoras têm sido um sucesso. As testbeds, por sua vez, representam também uma aposta inovadora. Este conceito de open innovation permite que grandes empresas disponibilizem ecossistemas para que PME testem e acelerem os seus produtos. Funciona como um porta-aviões, ligando startups a grandes empresas.
Paulo Reis acredita que o futuro da inovação no país dependerá da capacidade de criar um ambiente propício ao desenvolvimento tecnológico e empresarial, apostando na transformação digital e na colaboração entre diferentes setores. "Se tivermos um foco e um caminho bem definido, tudo se torna mais fácil", conclui Paulo Reis.