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Negócios Iniciativas | Inovação em Portugal redefine o futuro urbano

Com a digitalização, a eletrificação e novas soluções de mobilidade, o país está a redefinir a forma como nos deslocamos e a posicionar-se como um laboratório vivo para a inovação urbana.

25 de Fevereiro de 2025 às 14:00
Ralf Hahn/Getty Images
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A expansão da rede pública de carregamento é crucial para a adoção de veículos elétricos.

O crescimento das cidades está, claramente, a redefinir a forma como nos deslocamos. Ruas congestionadas, transportes públicos sobrecarregados e níveis de poluição elevados tornaram-se, agora, parte do quotidiano urbano. Senão, vejamos: com 56% da população mundial a viver em cidades - um número que poderá atingir 70% até 2050, segundo a McKinsey -, a pressão sobre as infraestruturas urbanas só tende a aumentar. Se, por um lado, os centros urbanos são motores de inovação e desenvolvimento económico, gerando mais de 80% do PIB global, por outro, consomem dois terços da energia mundial e são responsáveis por mais de 70% das emissões de gases com efeito de estufa.

A consultora McKinsey admite que a resposta a este dilema passa pela transformação dos sistemas de mobilidade. Cidades como Amesterdão, que há décadas decidiu reduzir a dependência do automóvel, ou Paris, que prevê criar 180 quilómetros de ciclovias segregadas, são claros exemplos de como as urbes estão a reinventar-se para oferecer alternativas mais sustentáveis.

Mas a mudança é altamente complexa. O que funciona numa metrópole pode não ser replicável noutra, já que cada realidade urbana obedece a desafios e dinâmicas próprias. No estudo "Infrastructure technologies: Challenges and solutions for smart mobility in urban áreas", a McKinsey sublinha que a implementação de soluções inovadoras em grande escala é dificultada pela multiplicidade de atores envolvidos - governos, autarquias, operadores de transporte e empresas de tecnologia - exigindo uma coordenação eficiente entre todos.

A evolução do consumo e dos hábitos de deslocação veio introduzir novas variáveis. O e-commerce acelerou a presença de veículos de entrega nas ruas, intensificando a pressão sobre a infraestrutura rodoviária. Menos mal, sublinha a McKinsey, a ascensão da mobilidade partilhada, elétrica e autónoma está a redesenhar o paradigma da mobilidade urbana, com projeções que apontam para um mercado de mobilidade partilhada entre 500 mil milhões e mil milhões de dólares até 2030.

A questão do financiamento

Se, à escala global, a transição para cidades inteligentes tem sido impulsionada por desafios crescentes de mobilidade e sustentabilidade, em Portugal este movimento está a ser acompanhado por uma série de iniciativas que visam modernizar as infraestruturas urbanas e incentivar soluções inovadoras. De acordo com a Agência Nacional de Inovação (ANI), existem vários programas de financiamento disponíveis para apoiar startups e municípios no desenvolvimento de soluções para cidades inteligentes, cobrindo áreas como a transformação digital, a experimentação tecnológica e a mobilidade sustentável. A ANI salientou que um dos mecanismos de apoio mais relevantes são os Polos de Inovação Digital (DIH), que fornecem serviços como testes tecnológicos, formação e incubação para acelerar a adoção de novas tecnologias por startups, PME e instituições públicas. Dentro deste contexto, a ANI mencionou o DIH4ClimateNeutrality, que assume um papel central ao promover a transição para cidades neutras em carbono através do uso de dados e tecnologias digitais. Outros polos incluem o AI4PA Portugal, que aposta na inteligência artificial e na ciência de dados para otimizar a administração pública, e o Smart Island Hub (SIH), na Madeira, que apoia a inclusão digital e a transição tecnológica das PME?.

A Rede de Testbeds disponibiliza infraestruturas para que as empresas possam testar novas tecnologias em áreas-chave para as cidades inteligentes. Entre os domínios abrangidos, a ANI destaca a conectividade 5G, a mobilidade, os pagamentos digitais, a economia circular e as soluções para smart homes, que incluem infraestruturas como carregadores elétricos e sistemas de bilhética digital.

Outro mecanismo essencial na promoção da inovação urbana são as Zonas Livres Tecnológicas (ZLT), diz a ANI, criadas para permitir a experimentação de tecnologias em condições reais, com acompanhamento regulatório. "Um dos exemplos mais recentes é a ZLT de Matosinhos, lançada em 2023, que "visa contribuir para afirmar Portugal como uma referência no desenvolvimento, teste e experimentação de soluções inovadoras de mobilidade orientadas para a neutralidade carbónica das cidades".

Horizonte europeu

A nível europeu, o programa Horizonte Europa tem vindo a desempenhar um papel crucial no financiamento de projetos ligados à transformação digital e ecológica das cidades, com um impacto direto em Portugal através da Missão Europeia das 100 Cidades Inteligentes e Climaticamente Neutras. Esta iniciativa visa apoiar 100 cidades europeias na adoção de soluções climáticas inovadoras até 2030, permitindo que sirvam como referência para outras localidades no futuro. Lisboa, Porto e Guimarães fazem parte desta missão e, segundo a ANI, em maio deste ano serão lançados concursos no valor de 78 milhões de euros para apoiar projetos de investigação e inovação alinhados com os objetivos desta iniciativa.

Adicionalmente, a plataforma da Missão das Cidades (NetZeroCities) tem vindo a prestar apoio a municípios portugueses, como Guimarães, Torres Vedras e Fundão, através do programa ‘Pilot and Twinning’?.

Outro eixo de financiamento europeu é o Cluster 5 (Clima, Energia e Mobilidade), que prevê um orçamento de 1107 milhões de euros para concursos dedicados a temas como descarbonização, eficiência energética e mobilidade sustentável, a serem lançados também em maio de 2025. Paralelamente, o Conselho Europeu de Inovação está a apostar em soluções escaláveis para reduzir as emissões no setor da mobilidade, apoiando empresas que desenvolvem inovações tecnológicas desde o fabrico até à utilização de veículos.

Mobilidade sustentável e digitalização

Eduardo Ramos, chief development officer (CDO) do grupo Brisa, salientou ao Negócios que a introdução da bilhética eletrónica, dos pagamentos contactless e a integração de diferentes plataformas de mobilidade generalizou o acesso aos vários modos de transporte, reduzindo tempos de espera e permitindo uma maior fluidez nas deslocações.?"Os utilizadores podem hoje pagar por diferentes serviços de transporte, como portagens, estacionamento e transporte público, através de uma única plataforma digital, como é o caso da Via Verde, o que simplifica a experiência do cliente e incentiva ao uso de opções de transporte mais sustentáveis".?

A digitalização e os sistemas de pagamento eletrónico têm vindo a transformar significativamente a mobilidade urbana.Eduardo Ramos
Administrador do Grupo Brisa

Adicionalmente, a geração de dados proveniente destes sistemas "contribui para que as cidades e os operadores consigam melhorar a sua oferta de serviços e tomar decisões mais informadas sobre as infraestruturas e a gestão do tráfego", acrescenta Eduardo Ramos. Um bom exemplo é o serviço em fase piloto do Parking Buddy da Via Verde, através do qual o cliente "consegue perceber qual a probabilidade de encontrar um lugar de estacionamento na rua e em parques privados, o que permite um melhor planeamento da viagem e um menor consumo de combustível no tempo passado à procura de um lugar".? Com a inovação a ser "um pilar fundamental para o grupo Brisa ao longo dos anos", Eduardo Ramos garante que a empresa tem investido em projetos-piloto que estudam novas tecnologias e abordagens, por exemplo, ao nível do pagamento da portagem.

Começámos muito cedo, em 2010, num momento em que a mobilidade elétrica era uma miragem.Luís Barroso
CEO da MOBI.E

Segundo o CDO, a empresa tem apostado na eletrificação da sua frota operacional, incluindo viaturas de patrulhamento e assistência rodoviária, e dispõe de carregadores elétricos nas áreas de serviço Colibri, permitindo "uma viagem do Minho ao Algarve sem ansiedade".

Expansão do carregamento

A expansão da rede pública de carregamento tem sido crucial para a adoção de veículos elétricos, colocando Portugal numa posição de destaque face a outros Estados-Membros da União Europeia, garante Luís Barroso, presidente da MOBI.E. "Até ao momento, o nosso País tem-se destacado da maioria dos restantes Estados-Membros, onde se tem registado quotas de mercado nos registos de veículos eletrificados superiores à Alemanha, França, Espanha ou Itália", refere. É o resultado de um trabalho que começou muito cedo, ainda em 2010, num momento em que "a mobilidade elétrica era uma miragem".

Inspirada no sucesso do sistema Multibanco, a estratégia nacional assentou na criação de uma rede de carregamento interoperável e universal, garantindo que qualquer utilizador pudesse circular por todo o país com um único meio de acesso. "Focámo-nos em proporcionar a melhor experiência possível ao utilizador de veículo elétrico ", explica Luís Barroso.

Os números confirmam o impacto positivo desta abordagem. "Temos um mercado dinâmico e a funcionar em concorrência, onde os agentes de mercado têm vindo a investir fortemente e que gera confiança nos consumidores, permitindo que o parque automóvel eletrificado esteja a crescer mais rapidamente do que nos outros países", destaca o presidente da MOBI.E.

Só no último mês de 2024, 25% dos veículos vendidos foram 100% elétricos (BEV), e em janeiro de 2025 essa quota fixou-se nos 22,5%. Paralelamente, a expansão da rede tem acompanhado esta evolução, com a superação das metas propostas no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e com o crescimento da utilização da rede nacional em mais de 65%?.


Investigação académica é motor
A investigação tem desempenhado um papel fundamental na análise e desenvolvimento de soluções para a mobilidade sustentável, permitindo quantificar impactos ambientais, avaliar novas formas de transporte e contribuir para políticas mais eficientes. Margarida Coelho, do departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro, tem vindo a trabalhar estas questões ao longo dos últimos 19 anos e destaca as principais áreas de investigação que atualmente estão em desenvolvimento na instituição. "Neste momento, desenvolvemos investigação nos seguintes domínios: impactes da mobilidade, incluindo a avaliação das emissões de CO2, de poluentes, bem como os conflitos rodoviários e os níveis de ruído de tráfego em diversas situações de mobilidade urbana", explica. Além da investigação académica, a Universidade de Aveiro tem estado envolvida na coordenação de vários projetos Interreg Europe, que promovem soluções sustentáveis em colaboração as autarquias de Águeda e do Fundão e com a Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra. Entre os projetos desenvolvidos, Margarida Coelho destaca o CISMOB, que se foca na mobilidade sustentável e conectada, o PriMaaS, centrado na promoção da mobilidade como serviço (Mobility as a Service), o EMBRACER, dedicado à interconexão da mobilidade entre cidades e subúrbios europeus, e o SPOTLOG, que aposta na inovação logística urbana verde e socialmente responsável.


Candidatura abertas ao Prémio Nacional de Inovação
As candidaturas ao Prémio Nacional de Inovação estão abertas até ao próximo dia 17 de abril. Para mais informações consulte aqui o site

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