A Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve, I.P. (CCDR Algarve, I.P.) foi parceira do projeto Atlazul, que envolveu 18 beneficiários e compreendeu uma candidatura ao programa INTERREG/POCTEP, com o objetivo geral de identificar desafios, oportunidades e gerar redes que promovam a especialização da área transfronteiriça no domínio do crescimento azul, bem como o desenvolvimento de ações inovadoras no domínio do crescimento azul sustentável relacionadas com processos metabólicos que fornecem novas soluções com suporte digital e melhoria do conhecimento terrestre e marinho, nas regiões de Andaluzia, Algarve, Alentejo e Galiza.
Neste contexto, a CCDR Algarve, I.P., com o apoio técnico do Fórum Oceano – Associação da Economia do Mar, em 2022 e 2023, procedeu à elaboração de uma Estratégia Regional de Crescimento Azul para o Algarve, integrando a cooperação transfronteiriça e o envolvimento das regiões do Algarve, Andaluzia e Alentejo (Eurorregião AAA), no âmbito do projeto Atlazul.
Por outro lado, elaborou um Plano de Ação da Estratégia de Crescimento Azul da Região do Algarve, compreendendo propostas de projetos e ações que contribuem diretamente para a consecução das Linhas de Orientação Estratégica que organizam a Estratégia de Crescimento Azul do Algarve e se enquadram na visão que orienta o plano.
A referida estratégia integra um conjunto de referenciais fundamentais, nomeadamente as Estratégias Regionais de Especialização Inteligente das regiões do Algarve e do Alentejo, a Estratégia de Cooperação Transfronteiriça AAA e a Estratégia Comum de Desenvolvimento Transfronteiriço entre Portugal e Espanha para 2027, bem como os enquadramentos estratégicos plasmados em documentos comunitários como são o Pacto Ecológico Europeu, Europa Digital, Estratégia do Atlântico e, no plano nacional, Estratégia Nacional para o Mar (ENM 21-30), Plano Nacional para a Aquacultura, Programa de Recuperação e Resiliência (PRR), Turismo + Sustentável.
A estratégia incorpora ainda o conjunto de conclusões e de recomendações decorrentes de reuniões realizadas com a CCDR Algarve e com a Junta de Andaluzia, no que se refere à componente de Cooperação Transfronteiriça Alentejo, Algarve, Andaluzia (AAA, e os resultados das três Jornadas de Trabalho com stakeholders realizadas em Vila Real de Santo António (julho de 2022), Olhão (novembro de 2022) e Portimão (abril de 2023) que contribuíram com as suas propostas para a elaboração da Estratégia de Crescimento Azul e do Plano de Ação.
As referidas sessões de trabalho contaram com o envolvimento dos atores locais e permitiram identificar oportunidades de ação e cooperação nas áreas ambiental, investigação e ciência, turismo e náutica, gestão e administração portuária, estaleiros e indústrias navais, aquicultura e algas, bem como pesca artesanal.
Análise cruzada e cooperação
A construção da estratégia de cooperação transfronteiriça na área do crescimento azul identificou os espaços pertinentes de cooperação – domínios de interesse comum – a partir da confluência entre a estratégia da região e os interesses comuns à eurorregião. Foi um trabalho de cruzamento entre perspetivas e interesses que não pode deixar de ser feito com o envolvimento ativo das partes interessadas. Tratou-se de um processo conducente à construção das convergências onde elas possam existir e à criação de um clima de confiança entre as partes, condição indispensável à prossecução da estratégia de cooperação.
As orientações estratégicas delineadas foram objeto de apresentação e discussão com atores locais no âmbito das Jornadas de Trabalho e em termos gerais as principais linhas de orientação estratégica apresentadas na Estratégia de Especialização Inteligente da Economia Azul foram validadas, com contributos cuja relevância merece referência.
A leitura cruzada entre os objetivos da Estratégia AAA e os objetivos das regiões do Alentejo e do Algarve, em matéria de crescimento azul, identifica como campos de convergência entre os objetivos da Estratégia do Algarve, os objetivos da Estratégia de Cooperação Transfronteiriça AAA e os objetivos da Estratégia da Região do Alentejo os seguintes: Guadiana; pesca artesanal; aquacultura marinha; valorização do património histórico e cultural comum; valorização dos ecossistemas marinhos e das áreas de transição terra; prevenção e mitigação dos efeitos decorrentes das alterações climáticas; promoção de um ambiente favorável à inovação, ao empreendedorismo e ao aumento de valor das principais cadeias produtivas da economia azul presentes na região; desenvolvimento de novos produtos de turismo sustentável; produção de energia elétrica sustentável, aproveitando a energia das ondas em Sagres; criação de uma infraestrutura de teste e de prototipagem e centros que queiram testar os seus produtos na área da economia azul; criação de uma plataforma de produtos e serviços navais com recurso a tecnologias 4.0 para diversificação e sofisticação de modelos de negócio.
Estratégia com três princípios fundamentais
Em relação à formulação da estratégia, seguiu três princípios fundamentais dos quais se destacam, em primeiro, o alinhamento com os principais referenciais estratégicos de âmbito europeu, nomeadamente o Pacto Ecológico Europeu e o Programa Europa Digital, e com os principais referenciais nacionais e regionais, nomeadamente a Estratégia Nacional para o Mar, o Portugal 2030 e o PRR e as estratégias de desenvolvimento regional das regiões consideradas.
Depois, a abordagem cruzada construída a partir de um conjunto de propostas recolhidas junto dos stakeholders regionais, nas Jornadas de Trabalho, que permitiram validar, completar e ajustar algumas propostas apresentadas pela equipa técnica da CCDR Algarve e da Fórum Oceano.
E ainda a operacionalidade no sentido em que se pretende que a estratégia reúna condições de aplicação e concretização no terreno, privilegiando-se, na sua formulação, a verificação das condições de viabilidade necessárias ao cumprimento deste requisito, ou seja, que cada uma das linhas propostas seja operacionalizável através dos projetos constantes do plano de ação.
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Rui Azevedo, consultor estratégico do Fórum Oceano, falou da visão estratégica do Atlazul, na sessão de trabalho que decorreu em Olhão
Construção de um modelo de governação
Quanto à conceção, execução e monitorização da estratégia de cooperação transfronteiriça para o crescimento azul exige um dispositivo de governação a criar desde o início do processo. Esse dispositivo deve garantir condições de coordenação política, de participação dos atores, de equilíbrio de representações, de coordenação técnica da responsabilidade partilhada entre as regiões envolvidas, e um sistema de monitorização que sistematize a informação relevante para o acompanhamento da estratégia e da sua execução. Poderá incluir um conselho consultivo constituído por personalidades reconhecidas em Espanha e Portugal para emissão de pareceres e de propostas.
O modelo de governação compreende um órgão de coordenação política e institucional, com a participação das presidências das três regiões; um órgão de coordenação executiva; mesas de cooperação, de âmbito temático; um órgão para a monitorização da estratégia e do plano de ação e um conselho consultivo constituído por personalidades reconhecidas indicadas pelas três regiões, com responsabilidade pela emissão de pareceres e de recomendações estratégicas de apoio à coordenação política.
O projeto Atlazul propõe no modelo de governação a criação de uma Agência Atlântica Marítima e de conselhos regionais de crescimento azul, um em cada região EUROAAA, e, nos termos do trabalho conjunto realizado, definiu-se que integrará os órgãos anteriormente referidos, cuja implementação se pretende efetuar no contexto de um novo projeto Atlazul II, a promover entre as três regiões no novo Quadro de Programação Financeira do INTERREG/POCTEP.
Plano de ação
A finalizar, o Plano de Ação da Estratégia de Crescimento Azul da Região do Algarve integra os projetos e ações que contribuem para a consecução das Linhas de Orientação Estratégica que organizam a Estratégia de Crescimento Azul do Algarve e se enquadram na visão que orienta o plano. A sua construção beneficiou do contributo de um conjunto de atores mobilizados ao longo das três Jornadas de Trabalho. Trata-se de um documento dinâmico, pois tem margem para incorporar outras propostas de projetos que venham a emergir ao longo do tempo.
Em sequência das Jornadas de Trabalho realizadas, foram recebidas 30 propostas de projeto, de 18 promotores diferentes.
Linhas de Orientação Estratégica para o desenvolvimento da Economia azul da Região do Algarve
Estas Linhas concorrem para a concretização da visão e a sua formulação e respetivos conteúdos resultam do trabalho realizado entre a CCDR Algarve e o Fórum Oceano, com os stakeholders regionais.
L1 – Conhecer os recursos marinhos e valorizar os serviços de ecossistema de carbono azul e compatibilizá-los com outras atividades nomeadamente a produção de algas e a aquacultura;
L2 – Qualificar e escalar a cadeia de valor da aquacultura sustentável, incluindo a produção de algas;
L3 – Promover a sustentabilidade da pesca e a melhoria das condições de segurança;
L4 – Desenvolver a indústria da construção, reparação e manutenção naval;
L5 – Promover a digitalização, a automação, a descarbonização e a eficiência energética das infraestruturas portuárias;
L6 – Promover a sustentabilidade do turismo náutico e costeiro e do turismo de cruzeiros;
L7 – Promover a inovação e o empreendedorismo azul;
L8 – Promover o aumento de qualificações e de competências na área do Mar;
L9 – Promover a cooperação transfronteiriça AAA, com destaque para os seguintes domínios:
• Promover a navegabilidade, a valorização e a sustentabilidade do Guadiana;
• Valorizar a pesca artesanal no rio e no seu estuário e outras atividades tradicionais, designadamente a salicultura;
• Criar indicadores para a pesca sustentável, replicando e ampliando a experiência da Andaluzia no que respeita à "Conta Satélite da Pesca";
• Avaliar a viabilidade de criação de ligações marítimas de passageiros (para turistas e residentes) entre as principais cidades do Algarve e da Andaluzia, com eventual alargamento a cidades marroquinas;
• Avaliar a pertinência e viabilidade de criação de uma "plataforma conjunta AAA" que reúna no mesmo espaço os meios e capacidades técnicas de suporte ao desenvolvimento da indústria naval;
• Promover ações de formação que permitam atrair e formar jovens para trabalhar na indústria naval;
• Valorizar e articular os potenciais de conhecimento e de investigação que as instituições de ensino superior e os centros de ciência e tecnologia das três regiões no domínio do Mar, nomeadamente dos recursos marinhos e da bio economia, da valorização dos ecossistemas marinhos, da aquacultura, da produção de algas, da pesca, do turismo;
• Criar um "Laboratório de Ideias para a Cooperação" com o envolvimento de instituições de ensino superior, centros de IDT, empresas, entidades portuárias, entre outros, das regiões AAA;
• Promover o empreendedorismo azul e a inovação através de programas de aceleração de empresas em cooperação;
• Cooperar para assegurar a boa gestão dos ecossistemas de transição mar-terra;
• Promover o turismo sustentável nomeadamente através de um programa de descarbonização de portos de recreio e marinas e da descarbonização das embarcações de recreio;
• Prevenir e mitigar os efeitos das alterações climáticas.