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Nadim Habib: “Estamos a mudar muito lentamente porque geramos forte resistência à mudança”

O professor da NOVA SBE sublinhou, na Conferência Governança desta quarta-feira, a importância de as empresas definirem uma visão e uma estratégia que permita, de facto, evoluir no negócio e na sustentabilidade.

Mariline Alve
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Chegou a Portugal em 1991 vindo de um Líbano com falta de estabilidade e em conflito, mas também por cá encontrou conflitos que não esperava – desde logo, um decrescimento constante nos níveis de produtividade dentro e fora de fronteiras. "Em 1970, as empresas europeias faziam crescer a produtividade em 7% ao ano. Em 2010, com sorte, chegávamos a 1%", apontou Nadim Habib, professor da NOVA SBE, durante a Conferência Governança, organizada esta quarta-feira pelo Jornal de Negócios.

Mesmo com mais tecnologia e recursos humanos mais qualificados, as empresas continuam "a ter dificuldade em melhorar" neste indicador, com impacto na estagnação dos salários e, com ela, um aumento da desigualdade. "Sabemos que nos últimos 20 anos a desigualdade tem disparado", lamentou.

O problema, diz, está na dificuldade que as sociedades têm em mudar. Não por não compreenderem a sua importância, mas por uma forte "resistência" a essa transformação. Essa resistência, porém, não se verifica em períodos de crise. "Durante a pandemia descobrimos que podíamos trabalhar remotamente e abrimos um mundo de oportunidades. Pensei que as empresas iam redesenhar os seus processos e a sua organização para fazer nascer uma nova era de produtividade", afirmou perante a plateia na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais.

O resultado foi dececionante para Nadim Habib, que considera que "aumentámos trabalho sem melhorar a qualidade de vida". A capacidade de "sustentarmos a mudança" não é suficiente, diz.

A razão é falta de visão e de estratégia, tanto nas empresas como nas instituições políticas. "Fico preocupado quando somos incapazes de pensar estrategicamente. A sustentabilidade não é uma questão de sim ou não, é óbvio que sim [temos de a conquistar]", defendeu.

O processo "não é fácil", mas tem de ser feito e, para isso, é preciso ter líderes capazes de ajudar "as pessoas a lidar com a ansiedade da mudança", que apostem na transparência e no combate à desigualdade. "A sustentabilidade não é uma coisa simpática, mas tem de ser um desígnio da nossa governança e a base de um bom mercado", insistiu.

"Neste ambiente de mudança profunda, criticamos sempre a Europa e acho interessante porque, de certa forma, a Europa tem conseguido equilibrar as coisas", disse, lembrando mais uma vez a experiência pandémica. "Quando as vacinas começaram a chegar à Europa toda a gente se queixou que éramos lentos, mas seis meses depois fomos os que vacinaram mais e mais depressa e as empresas recuperaram", recordou.

Um futuro sem sustentabilidade, em todas as suas vertentes, não será ele próprio sustentável se existir desigualdade, estagnação e perda de produtividade. "Sabemos que a sustentabilidade funciona quando todos a fazem. Este é o grande desafio para os governantes", acredita Nadim Habib.

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