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Manuel Falcão - Jornalista 26 de Março de 2021 às 11:52

Esta Lisboa

Nos anos 1980, Lisboa começava a dar nas vistas: politicamente havia mais estabilidade, novos negócios começavam a abrir, a noite explorava territórios diferentes, culturalmente havia muita coisa a mexer

Back to basics
A coisa mais notável na política é ter a memória curta
John Kenneth Galbraith

Esta Lisboa
Nos anos 1980, Lisboa começava a dar nas vistas: politicamente havia mais estabilidade, novos negócios começavam a abrir, a noite explorava territórios diferentes, culturalmente havia muita coisa a mexer, da música às belas artes, surgia imprensa inovadora que mostrava outro lado das coisas. Lisboa era a estrela em filmes como "A Cidade Branca", de Alain Tanner, lá fora havia artigos sobre a transformação da cidade. Os Heróis do Mar apareciam na revista francesa Actuel e na britânica The Face.

No início da década de 1990, a agitação era ainda maior - Portugal foi o país escolhido em 1991 para a Europalia, em Bruxelas, o grupo Madredeus, convidado para o programa desse festival, internacionalizou-se a partir daí, graças à digressão europeia que fez, e uma das suas canções foi escolhida como banda sonora de um spot publicitário de uma marca global. Em Lisboa, o CCB abriu portas e a cidade recebeu a primeira presidência portuguesa da Comunidade Europeia. Em 1994, foi Capital Europeia da Cultura, Wim Wenders veio cá filmar "Lisbon Story", e a seguir a Exposição Mundial de 1998 (Expo 98) mudou a zona oriental da cidade, culminando num ciclo de acontecimentos que colocaram a cidade no mapa de uma forma única. A internacionalização de Lisboa começou aí. Essa foi a semente de toda a notoriedade alcançada depois. Era uma cidade animada, criativa, dinâmica. Que tratava bem quem cá vivia e acolhia quem nos visitava de braços abertos.

O que se tem passado nos últimos anos não é isso: a cidade virou costas aos residentes e abriu braços aos visitantes. Problemas que existiam, como a burocracia autárquica, apesar das promessas, não foram resolvidos. Foram lançadas mais taxas locais. Os serviços de urbanismo não melhoraram. A cidade ficou menos confortável, mais cara e sobretudo mais descaracterizada. Segundo a Pordata, numa década, Lisboa perdeu 10% da população tradicional, mas duplicou o número de residentes de outras nacionalidades. Não se tornou mais cosmopolita: perdeu alma e muito do que a tornava diferente. Está sem rumo. As próximas eleições autárquicas são sobre isto. Que cidade queremos? Seguir assim ou fazer diferente?

Semanada

n Em fevereiro, o registo de desempregados subiu para 432 mil, o maior número desde 2017, mas a cobertura do subsídio de desemprego voltou a cair nesse mês para 56% n a maior parte dos pedidos de ajuda que chegam à Cáritas Portuguesa, cerca de 60%, são para rendas de casa n segundo o INE, em 2020, os preços da habitação aumentaram mais de 8% e o Alentejo foi a única região onde aumentou a procura de casas n o município de Bragança anunciou que convida quatro famílias que possam trabalhar online a mudarem-se durante um mês para este território com tudo pago, no âmbito de um projeto que pretende atrair trabalhadores remotos para a região n em 2020, os contribuintes portugueses apresentaram mais faturas de despesas de veterinários, lares e reparações de motociclos do que em 2019, e a categoria de despesas com veterinários teve uma subida de 14,2% n os professores portugueses são os que apresentam maiores níveis de stress quando comparados com os de outros países da Europa n um dos produtos cujas vendas mais aumentaram no ano passado foi o chocolate para culinária, com um crescimento superior a 25% n no ano passado, o consumo de bens alimentares por parte das famílias portuguesas registou a maior subida dos últimos 25 anos n segundo a Sociedade Ponto Verde, durante a pandemia, o aumento da materiais enviados para reciclagem foi de 13% n a PSP e a GNR registaram 4901 contra-ordenações na primeira semana de desconfinamento e o dever geral de recolhimento domiciliário foi a regra mais quebrada na semana de 14 a 21 de março.

Dixit
Esta pandemia veio demonstrar que essas luminárias que andam para aí a discutir que menos Estado é melhor Estado não têm noção do que é o Estado
Isaltino Morais

A vida pode ser um romance
Há uns tempos, em 2019, Rui Nabeiro, o homem que criou um império a partir de Campo Maior e dos cafés Delta, propôs a José Luís Peixoto que lhe escrevesse a biografia. Peixoto agradeceu o convite, mas disse que em vez de uma biografia preferia pensar num romance que contasse a experiência de uma vida. Assim nasceu "Almoço de Domingo", a história de um "homem de 90 anos, que olha para o seu passado e faz um balanço de vida a partir de episódios significativos da sua história pessoal", conta o escritor. Peixoto e Nabeiro têm em comum o Alentejo que os viu nascer e crescer. A poucos dias de completar 90 anos, no próximo dia 28 de março, Rui Nabeiro serve de personagem ao escritor, que pega justamente nesse aniversário para desfiar as memórias de toda uma longa vida. "Almoço de Domingo" decorre entre 1931 e 2021 e conta a história de uma figura que se tornou referência na sua terra, em Campo Maior, que abraçou causas, desenvolveu a actividade das suas empresas para além do país e do café que lhe deu fama. Esta é a história de um empreendedor que, ao longo de momentos bem diferentes da vida portuguesa, teve sempre um papel activo, que manteve a fábrica a funcionar mesmo em momentos difíceis e soube apostar em inovação quando foi preciso, passando o testemunho às gerações seguintes. Não é caso único em Portugal, mas é, mesmo assim, caso raro. E ainda mais raro é escreverem-se romances sobre pessoas vivas. O título? A família Nabeiro mantém a tradição do almoço de Domingo, pano de fundo de todas as histórias que se vão desenrolando.

A valorização da arte
"Warrior," um quadro de 1982 da autoria de Jean-Michel Basquiat, foi vendido por 41,9 milhões de dólares num leilão online realizado pela Christie’s há poucos dias. Não se trata, no entanto, do maior preço alcançado por uma obra de Basquiat - em 2017, numa venda organizada em Nova Iorque, um coleccionador japonês, o milionário Yusaku Maezawa, pagou 110 milhões de dólares por uma pintura sem título do artista. Este é o valor mais alto alcançado até agora por um trabalho de Basquiat, que no mercado da arte contemporânea é um dos nomes que tem mais procura, em conjunto com Warhol e Picasso. O vendedor de "The Warrior", o gestor imobiliário e colecionador de arte germano-americano Aby Rosen, também possui obras de Pablo Picasso, Andy Warhol, Roy Lichtenstein, Cy Twombly, Alexander Calder, Damien Hirst e Richard Prince. Rosen comprou a obra na Sotheby’s London em 2012 por 8,7 milhões de dólares. E teve vendas anteriores de 5,6 milhões de dólares, em 2007, e de 1,8 milhão de dólares em 2005. Originalmente, "The Warrior" havia sido comprado por um coleccionador americano em meados dos anos 1990 por 250.000 dólares. Basquiat nasceu em Brooklin, numa família porto-riquenha, colaborou com Warhol e tornou-se num dos expoentes da arte norte-americana do final do século passado. Morreu em 1988 com 27 anos. Esta venda culmina uma semana de leilões online organizados pela Christie’s e Sotheby’s. Segundo a Art Basel e a UBS, o mercado de arte caiu cerca de 22% em 2020, em comparação com 2019, para um total de cerca de 50 mil milhões de dólares, englobando as vendas em galerias, vendas privadas e leilões públicos.

O mercado dos leilões teve uma queda ainda maior, na casa dos 30%, para os 17,6 mil milhões. E por cá? Por cá, galerias e museus preparam a reabertura para a segunda semana de Abril. Para a semana, começamos a falar do que aí vem.

Arco da velha
Face à progressiva extinção da ovelha leiteira da Serra da Arrábida, conhecida por ovelha saloia, os criadores de ovinos da região criaram o projecto "Adote Uma Saloia", com o objectivo de angariar contribuições para a alimentação dos animais.

A fuga da fama
Há dez anos alguém sabia quem era Elizabeth Woolridge Grant? Hoje em dia muita gente também não conhecerá este nome - mas se dissermos que assina os seus discos como Lana Del Rey, aí, as coisas começam a mudar. O seu primeiro disco como Lana Del Rey data de 2010 e, até chegarmos ao novo "Chemtrails Over The Country Club", o ritmo foi de quase um álbum por ano, se incluirmos o disco de poesia declamada por ela, numa edição limitada no ano passado. A revista norte-americana Rolling Stone considerou este "Chemstrails" como o seu álbum mais introspectivo, prosseguindo o caminho de ruptura com o sonho americano de Hollywood que ela já tinha iniciado em 2019, em "Norman Fuking Rockwell!". No novo disco há uma frase que ela canta e que resume tudo: "I’m ready to leave L.A., and I want you to come". Lana Del Rey continua a cantar a sua desilusão com a fama, afasta-se do "mainstream pop" que lha deu, e aproxima-se das melodias tradicionais da música popular norte-americana. Não é por acaso que a derradeira faixa do disco é "For Free", um original de Joni Mitchell, gravado em 1970, e onde se faz o contraste entre dois mundos: "I play if you have the money/ Or if you’re a friend to me/ But the one man band/ By the quick lunch stand/ He was playing real good, for free." Disponível em streaming.

Ovo deitado em cama de courgette
O confinamento produz uma quantidade fantástica de fotografias de comida no Instagram. Esta receita que vos proponho nasceu de uma imagem vista no Instagram - e não resisti a experimentar. Há muito que tenho um espiralizador, que permite pegar numa courgette e fazer longos fios da sua polpa. Chamo-lhe esparguete de courgette e uso-o muitas vezes, por exemplo, salteado com atum de conserva. Mas desta vez a ideia era outra. Peguei em duas courgettes que espiralizei e, num tabuleiro de ir ao forno, fiz dois montinhos. Temperei com um fio de azeite, gengibre em pó, sal e pimenta moída na altura e ainda pimentão doce fumado - um ingrediente que estou a utilizar cada vez mais e que dá um toque invulgar aos cozinhados. No meio de cada monte fiz uma cavidade - já vão saber para quê. Levei o tabuleiro ao forno a 220º durante dez minutos e depois, dentro de cada uma das cavidades, deitei um ovo. Polvilhei tudo com sementes de sésamo e levei de novo ao forno por mais seis minutos - deve chegar para a clara ficar opaca e a gema estar cozinhada, mas sem ter secado. Transfere-se cada monte para um prato e acompanha-se com um vinho rosé. Bom apetite.


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