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"Com as tarifas Trump vai ter um problema que é o aumento dos preços"
As taxas alfandegárias que Trump pretende aplicar a produtos europeus são "um incentivo a que quem já produz nos EUA aumente imediatamente os preços". Para António Ramalho e Gonçalo Moura Martins, é tempo de a Europa ganhar autossuficiência em vários domínios e de explorar outras alianças. Novo episódio do podcast Partida de Xadrez vai para o ar esta segunda-feira.
Qualquer que seja o modelo de taxas alfandegárias que a Administração Trump venha a aplicar a produtos europeus "terá como efeito o aumento de preços", afirma António Ramalho no 25.º episódio do podcast Partida de Xadrez, que vai para o ar esta segunda-feira no site do Negócios e nas principais plataformas. Para o gestor, esse efeito indireto "vai ser muito mais relevante do que os efeitos diretos que a redução do comércio internacional vai implicar".
Em seu entender, "as tarifas são um erro tremendo" em várias dimensões, sendo a mais grave o "incentivo a que quem já produza internamente aumente imediatamente os preços". "Os EUA vão tornar-se menos eficientes operacionalmente do que são hoje", antevê, sublinhando que "Trump vai ter um problema que é o aumento de preços".
Já Gonçalo Moura Martins considera que "não existe uma lógica racional económica" na decisão do presidente norte-americano, mas apenas "uma lógica política, mais transacional, que vamos descobrir mais à frente", já que "o consumidor americano vai pagar mais pela generalidade dos produtos".
Sobre a reação europeia, os dois gestores concordam que o Velho Contniente tem hoje um problema de governação para resolver. Para Moura Martins,"perante o volátil comportamento da nova administração americana, a necessidade de a Europa mudar passou a ser uma inevitabilidade".
"A Europa terá de ganhar autossuficiência em muitos domínios - como a energia e a defesa - e terá de inteligentemente defender-se da guerra comercial, não hesitando na retaliação, e de explorar ativamente outras parcerias e alianças", defende.
"A única aliança bilateral que é economicamente mais forte do que os EUA é a União Europeia com a China", diz, sublinhando que se os EUA valem 25% da economia mundial, os dois juntos representariam 36%. "Há que, pragmaticamente, rever parcerias e alianças", defende, acrescentando que "a Europa tem que deixar de ter complexos relativamente à China porque o que hoje os Estados Unidos estão a fazer à Europa é pior do que a China nos fez no passado", diz.
António Ramalho não tem dúvidas que nesta guerra comercial "a Europa será fustigada e Portugal também, mas se a prioridade for construir novos mercados e novas parcerias os efeitos negativos podem vir a ser mitigados no médio prazo".
Aos efeitos diretos e indiretos, o gestor soma ainda os efeitos sombra, explicando: "se tivermos uma penalização aos automóveis da Alemanha é provável que isso afete fortemente Espanha, e se afetar Espanha afeta 36% da capacidade exportadora de Portugal". "Portugal tem que olhar muito bem para o mercado espanhol e verificar se algumas destas medidas vão ter um efeito devastador", aconselha, lembrando que Espanha "é muito forte no setor automóvel", que é "aparentemente o grande problema na relação entre Europa e EUA".