Opinião
Monumentos
Hoje não existe praticamente nenhuma cidade que não tenha a sua placa ou monumento com listagens de mortos. Tornou-se mesmo uma das mais celebradas formas de arte pública.
Tive recentemente a oportunidade de voltar a passear por Bolonha. Tal como acontece em tantas capitais históricas a cidade tem um Museu aberto. Chama-se Piazza Maggiore e é para lá que turistas e visitantes peripatéticos, como é o meu caso, se dirigem por vontade própria ou impelidos pela multidão e pelo traçado urbano.
A grande praça, que na verdade se fez de um aglomerado assimétrico de três praças e séculos de construções e reconstruções, é hoje uma plataforma ampla e brilhante rodeada de palácios por todos os lados. A antiguidade do lugar é impressionante. O Palazzo del Podestà começou a ser construído em 1201. Outros foram seguindo a um ritmo praticamente de um palácio por século até à época dos descobrimentos.
A arquitectura também impressiona. Os edifícios têm naturalmente vários estilos, mas são todos marcados por uma vontade de grandeza que se exprime na escala, na verticalidade e em geral naquilo a que chamamos monumentalidade. Impulso que a famosa Torre degli Asinelli com quase cem metros de altura bem documenta.
Depois de visitar o Museu Morandi que se encontra alojado no Palazzo d’Accursio e que desilude pelo fraco aspecto e conteúdo, descubro dois enormes painéis mais recentes colocados sem qualquer pudor patrimonial numa parede da praça. Num deles, bastante gráfico, encontram-se centenas de fotografias e respectivos nomes de resistentes assassinados pelos fascistas de Mussolini. No outro, figura a lista dos mortos do atentado bombista na estação de Bolonha, levada a cabo em 1980 pelos novos fascistas da Itália contemporânea.
Apesar da simpatia pelas homenagens, pensei: do passado legaram-nos palácios; nós deixamos para o futuro listas de mortos.
Não se trata contudo de uma ideia bolonhesa, ao estilo do conhecido molho. Pelo contrário, este tipo de monumentos tem vindo a proliferar por toda a parte, ainda que com maior incidência no mundo ocidental.
A ideia é simples mas de grande intensidade emocional. Trata-se de fazer a lista, o mais exaustiva possível, dos nomes daqueles que morreram em consequência de um determinado evento, num determinado lugar e numa determinada ocasião. Tanto contempla guerras e massacres como desastres de origem humana ou natural. Asua raiz profunda é de natureza humanista e encontra-se no mesmo tipo de sentimento que originou os cemitérios e a celebração dos cadáveres que lhe está associada. Mas ao contrário dos cemitérios, locais recatados e íntimos, nestes casos é o lado público, moralista e monumental que se pretende destacar.
Hoje não existe praticamente nenhuma cidade que não tenha a sua placa ou monumento com listagens de mortos. Tornou-se mesmo uma das mais celebradas formas de arte pública, que motiva muitos artistas e a que todos os poderes públicos, sem excepção, recorrem à primeira oportunidade.
Basta pensar nas últimas décadas e na verdadeira proliferação de tais construções. Em Lisboa temos um com os mortos da guerra do Ultramar. Em Washington o mais famoso dedicado à guerra do Vietnam com 58.226 nomes. Em Nova Iorque com o 11 de Setembro; em Mont Blanc com as vítimas do incêndio no túnel; na Irlanda vários, com nomes de ambos os lados; no Japão e na Coreia geralmente em pequenos jardins; em Paris pelo contrário invadindo o espaço urbano, surgindo em cada esquina com os nomes dos que tombaram na primeira-guerra ou na resistência na segunda. Muitos deles por profissão, ferroviários, carteiros, tipógrafos, ou mais indistintamente reunidos pelo local dos fuzilamentos. Dos judeus chacinados pelos nazis nem se fala. As listagens cobrem vários países dando conta da dimensão da catástrofe. Encontram-se listas com republicanos, com monárquicos, com burgueses ou com mineiros. Demonstrando que não existe uma orientação ética ou política para tais monumentos. Tanto se enumeram os que tombaram do lado certo, como os que morreram do lado errado.
Como arte são uma forma dominante, pois o restante da chamada arte pública exprime autoria, criatividade e também muita mediocridade, mas não configura um estilo de época como o foram a estatuária equestre ou os monumentos neoclássicos. Como conteúdo não se pode deixar de reconhecer que são essencialmente celebrações de derrota. Ao contrário dos arcos do triunfo, esses monumentos popularizados pelos romanos e erigidos por múltiplas gerações de vencedores, os monumentos com listas de mortos bem se podiam chamar arcos da derrota, porque é isso que efectivamente assinalam. Derrota conjuntural, no acidente ferroviário ou na catástrofe natural, mas derrota profunda da própria espécie humana que não parece ser capaz de construir uma sociedade onde se supere a guerra, a chacina e a barbárie e se celebre a descoberta, a imaginação, a felicidade e, o mais importante de tudo, a vida.