Opinião
Brincar com o fogo
Que escrever quando o mundo está a ruir? Cavar ainda mais fundo a prostração ou tentar animar as hostes? Por natureza, não tenho tempo para depressões.
Que escrever quando o mundo está a ruir? Cavar ainda mais fundo a prostração ou tentar animar as hostes? Por natureza, não tenho tempo para depressões. Interesso-me sobretudo pelos futuros impossíveis, ou seja, aqueles que ainda não conseguimos projetar mas só imaginar. Mas não está fácil. À nossa volta só se ouvem queixumes. Justificados. Mesmo os mais dinâmicos vão submergindo à fatalidade, a esse fado tão português, absurdo e desmotivador. Há dias, um amigo desabafou que andava com pena dos portugueses. Tiveram tanta esperança, animaram-se com avanços extraordinários, sociais, tecnológicos, de simples e merecido bem-estar. Orgulharam-se com um pequeno país que passou do ruralismo salazarento para o cosmopolitismo das grandes urbes. E, de repente, caiu-lhes o céu em cima, como aos gauleses do Astérix. Mete dó. Mas não há nada pior do que ser coitadinho.
Como se a tragédia europeia, a nossa, não bastasse, temos agora a ameaça de uma guerra nuclear lá para os lados do oriente. Pode parecer muito longe, mas não é, neste planeta onde tudo se liga com tudo. Um jovem mimado, sucessor de uma dinastia anacrónica, que se diz comunista e tudo, quer mostrar aos seus pares sangue na guelra. País multi-miserável, pela fome, pela total falta de liberdade, pela inexistência de vida minimamente digna, a Coreia do Norte representa, no campo do real, aquilo que os maus filmes de ficção científica mostram na tela. O cenário impressiona. Multidões de autómatos humanos, todos vestidos de igual, exibem regularmente coreografias tão medíocres quanto alienantes. Pretendem simular, aos olhos do mundo, uma unidade de pensamento, mas na verdade revelam a extrema estupidez.
A este propósito, quem melhor desmontou estes regimes do espetáculo totalitário foram os situacionistas das décadas de 60 e 70, quando muitos jovens europeus e americanos aderiam ao maoismo e seus sucedâneos. Por cá, algumas dessas figuras, que agitaram no ar o livrinho vermelho, chegaram a lugares cimeiros da política. Não admira. Andaram na escola da manipulação. Adiante.
Este Kim Jong-un está muito provavelmente a fazer bluff. Para consumo externo, para conseguir umas latas de feijão extras para dar de comer aos acólitos, mas também para consumo interno. Feito general aos 27 anos, deve andar apavorado com os seus parceiros, mais velhos e mais sinistros do que ele. Até já o tentaram matar, ao que se diz. Mas estas coisas dos bluffs por vezes correm mal e ganham vida própria. A região atingiu um tal pico de instabilidade que basta um tiro, acidental ou nevrótico, para que a tremenda borrasca se desencadeie. Tal como sucede noutros casos, também aqui estamos perante um sistema emergente. O bater da asa da borboleta pode desencadear a tempestade.
Atravessamos, pois, um período histórico assaz negativo. Não é o primeiro, nem será o último. Este que nos coube tem uma característica peculiar. Numa era em que a democracia se tornou numa ideologia dominante e a liberdade numa bandeira sistémica, assistimos, afinal. a uma perversão destes valores.
Na Europa, os governos democráticos agem deliberadamente contra a população que os elegeu. Criam o caos, roubam descaradamente rendimentos e poupanças, atiram multidões imensas para a inatividade e a pobreza extrema. São homens que deixaram de servir o bem público e se curvam perante interesses ditados por entidades sem qualquer legitimidade democrática. Vendem os seus países ao desbarato. Hipotecam futuros. Somos governados por fantoches em democracias que se tornaram meramente formais sem conteúdo político e, sobretudo, onde falta a diversidade. Democracias suspensas.
Muitos intervenientes afirmam mesmo, sem pudor, que não interessa derrubar o atual governo e realizar novas eleições, porque tudo ficaria na mesma. Haverá maior confissão de fracasso do sistema democrático? Cabe perguntar. Se a democracia deixou de valer, o que resta então ao povo senão a revolta violenta? A elite política e económica anda definitivamente a brincar com o fogo.
Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.