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Bordallo Pinheiro: Um sonho vidrado em asas de andorinha

Estas são as Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro. Mais do que um caminho na cerâmica, uma história de pessoas. E de sonhos que, por vezes, foram coincidências do destino.

07 de Março de 2017 às 00:01
Pedro Elias
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Nunca uma bronquite deu tanto à cultura portuguesa. Foi para se tratar deste problema que Raphael Bordallo Pinheiro se mudou para as Caldas da Rainha. As termas prometiam ser a solução.

Em vez disso, foi contaminado por um vírus mais saudável: as faianças artísticas. Já lá vão 133 anos. Das flores aos animais, passando pelas frutas e legumes. As paletes escondem um universo naturalista. Lá dentro, um esforço em cadeia. Manual, atencioso.

Francisco Serrenho chegou às 05:42, antes da hora de entrada, como é costume. Desta vez, a preocupação está nas abelhas gigantes. "Isto não sai inteiro do molde. Temos de fazer uma cirurgia aqui a meio", explica. Já lá vão 39 anos de paixão. "Sou muito dedicado aqui à fábrica. Às vezes, em casa, ponho-me a pensar como vamos fazer as peças".

Antes de chegarem a Francisco Serrenho, estas já tiveram de passar por muitas etapas, por muitas mãos. O processo cerâmico arranca no departamento de modelação, onde se criam moldes a partir dos desenhos dos artistas ou do designer residente na Bordallo Pinheiro.

É um trabalho de minúcia: cada pata de animal ou folha é um molde autónomo. Pode ser necessário juntar dezenas de moldes para se criar uma única peça. Vítor Formiga é responsável por esta área. Está na fábrica há 34 anos por "circunstâncias da vida". "Tinha o bichinho dentro de mim, queria fazer coisas novas". Foi o terceiro irmão da família a entrar na fábrica.

O que parece não é

"As pessoas tendem a ver a cerâmica como o parente pobre das artes. Pelo contrário, é um trabalho que não se aprende em dois dias. Qualquer erro condiciona o percurso da peça. Há um grande trabalho manual. As pessoas sentem-se artistas fazendo estas obras", começa por dizer a directora artística. Elsa Rebelo é, também ela, filha de ceramistas.

É preciso tempo para que as criações ganhem forma. Depois de sair dos moldes, entram em "modo de pausa", para secar. Nas peças maiores a espera pode chegar a semanas. Em todas é necessário passar esponja, para alisar as bordas. Quando tudo estiver a postos, a pintura.

Aqui, o que parece não é. As cores em cru nada têm a ver com o resultado depois de cozidas. O rosa vira vermelho – e ainda é o mais parecido. Um acastanhado vai virar "verde Caldas", bem vivo. Aos 20 anos, Catarina Lopes tem passado os últimos meses a pintar. Deixou Lisboa para trás e foi atrás do sonho. "Toda a gente me dizia que a cerâmica não era uma profissão para seguir", lembra. Ela contrariou-os.

É um dos rostos mais novos entre os cerca de 200 trabalhadores. São sobretudo mulheres. A média de idades está nos 44 anos. Tiago Mendes, director de operações, reconhece que nem sempre é fácil arranjar mão-de-obra qualificada. "Também somos um pouco exigentes. Malta mais nova há alguma mas é muito mais instável", justifica.

Passar técnicas centenárias, "os traços e desenhos que o mestre deixou", a novas gerações é uma prioridade. Só assim se dá continuidade a um legado que conta já com mais de oito mil peças. Mas não basta. "Não queremos parar no tempo. Queremos inovar. Há dezenas de máquinas mas não conseguem o detalhe que conseguimos fazer. Temos de ser humildes para encontrar nas pessoas o que sabem fazer melhor", diz Tiago Mendes. Por isso mesmo, este responsável não gosta de passar o dia à frente do computador.

À prova do som

Há um "tlim tlim" repetitivo. Na fase da escolha, todas as peças são passadas a pente fino para detectar falhas. As imperfeições podem ter retorno. Se não houver alternativa, os cacos são aproveitados e mandados para cimenteiras.

Cada bata das trabalhadoras é diferente. A empresa tem vontade de criar a "bata Bordallo Pinheiro" para reforçar o sentimento de pertença. Luciana Belchior faz parte da casa há 45 anos. Chegou aos 18, começou na pintura, está agora a fazer o registo na última etapa do processo: "Tinha o sonho de vir para a Bordallo Pinheiro, é engraçado".

Mudam os tempos, os trabalhadores, os proprietários, as inspirações, as técnicas. Três coisas são certas. As peças encolhem 5% no forno. As andorinhas voam com asas negras. E as "couves continuam a ser ‘best-sellers’".

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