Outros sites Medialivre
Notícias em Destaque
Notícia

Primeira entrevista a Henrique Granadeiro depois do fim da OPA

A primeira grande entrevista do presidente da Portugal Telecom após o desfecho da OPA foi dirigida aos colaboradores do Grupo PT. Henrique Granadeiro fez o balanço de 13 meses da OPA, elencou os grandes desafios e explicou os contornos do "spin-off" da PT

07 de Março de 2007 às 11:51
  • ...

Em qualquer dos cenários, em primeiro lugar está o esclarecimento ou a redefinição do acordo de parceria com a Telefónica?

H.G. - É verdade. Mas eu já me pronunciei sobre isso. Entendo que a Telefónica, ao ter anunciado como facto relevante na bolsa de Madrid, que iria votar a favor da desblindagem dos estatutos, alinhada com a Sonae, por questões de princípio o que ainda é mais difícil de compreender quando eles têm exactamente o mesmo tipo de blindagem que nós temos. Fiquei surpreendido e chocado. A Telefónica, ao ter-se encaminhado por essa direcção, ficou desalinhada daquilo que foram dez anos de parceria estratégica muito útil para as duas empresas e muito honrosa para as duas empresas. E tendo sido da iniciativa da Telefónica entrar por essa via de ruptura com o quadro estratégico com o qual tínhamos vindo a cooperar, naturalmente que eu darei um tempo à Telefónica para que se pronuncie sobre essa sua opção de ruptura, em vez de uma opção de alinhamento que seria a opção natural. Se a Telefónica não reagir a tempo, tomarei as medidas que entender apropriadas para o esclarecimento dessa situação.

Comigo as situações não apodrecem, mas também não vai haver da minha parte nenhuma precipitação nem nenhum passo em falso, nessa direcção.

Caso a Telefónica venha a sair da estrutura accionista da PT, que outro tipo de accionista, com este tipo de características de grande player em termos internacionais, de operador global de telecomunicações, gostaria de ver no seu lugar?

H.G. - A isso eu não vou responder, identificando qualquer hipótese. Apenas chamo a sua atenção para o seguinte. Depois de ter já sido eleito presidente, houve um accionista de referência, o Sr. Patrick Monteiro de Barros, que vendeu as suas acções e que saiu da empresa. O Sr. Coronel Luís Silva também anunciou, primeiro que tinha descido dos 2% de participação, e hoje tem uma participação pouco mais que simbólica na PT. Houve quem olhasse para isso como uma tragédia, como uma redução quase insanável do grupo de accionistas de longo prazo da PT. Não é verdade. Saiu um accionista de 2%, entraram dois accionistas de 3,8% e 3%, e outro ainda de 3,4%... Portanto, feito o balanço de há um ano para cá, saíram menos accionistas e mais pequenos do que aqueles que entraram.

Se sair a Telefónica do capital da PT, não vai ser nenhuma tragédia para a PT. Há formas de responder a esse problema e essas soluções encontrar-se-ão no momento próprio e da forma que melhor se enquadrem na visão estratégica para a PT. A PT não depende de ninguém para definir a sua própria estratégia. A PT é uma empresa portuguesa, assente numa capacidade de gerir inovação, assente numa boa ligação com o sistema científico e técnico português e com uma visão de crescimento nas geografias onde esse crescimento se vai processar: seguramente o Brasil e a África. Daí que o nosso projecto é um projecto autónomo, não é subsidiário de nenhum outro, nem da Telefónica nem de nenhum parceiro que venha a estar connosco. Não estou nada apreensivo com a saída de qualquer accionista. Nós próprios vamos favorecer, através do programa de compra de acções próprias, um re-alinhamento da nossa estrutura accionista, privilegiando os accionistas de longo prazo contra os accionistas de curto prazo e de rentabilidade imediata. Portanto é um problema que resolveremos no tempo em que ele for posto.

Só para fechar a frente internacional?África tem sido referido por si como um dos continentes, uma das geografias onde a PT quer estar presente e vai continuar a estar presente. Essa presença vai manter-se com as parcerias já existentes ou com novas apostas a acrescer às já existentes?

H.G. - África é, indiscutivelmente, um dos continentes do futuro. Tem problemas de toda a ordem, desde problemas de ordem sanitária até problemas de risco político. Tem problemas e dificuldades mas é, indiscutivelmente, um dos continentes do futuro? Um continente onde há 900 milhões de seres humanos, com uma tendência de, rapidamente, ultrapassar o bilião; onde a penetração das telecomunicações é relativamente reduzida e onde é obrigatório que se montem esquemas de apoio para o desenvolvimento da captação de riqueza e de autonomização do desenvolvimento nesse continente. A África vai deixar de ser um continente assistido para passar a um continente de desenvolvimento sustentado.

Foi um continente explorado e abandonado à sua sorte durante tempo demais e, finalmente, a comunidade internacional começa a olhar África com outros olhos. Com esses olhos com que nós, já há muito tempo, olhávamos África. Temos uma especial aptidão para trabalhar nessas geografias e temo-lo feito com sucesso. Uma das primeiras coisas que faremos é a cristalização dos nossos activos em África, a criação de uma holding que poderá ser a PT África ou a ÁfricaTel, (havemos de encontrar o nome que for mais apropriado). Vamos criar parcerias para esse desenvolvimento, com uma base financeira para alargamento das nossas operações. Estou convencido que está ao nosso alcance lançar um operador pan-africano, conjuntamente com os nossos parceiros actuais e com alguns futuros que queiram estar connosco nessa aventura de criar um novo operador pan-africano. Pensamos que ainda vamos a tempo, apesar de termos de lamentar que esta paralisia e esta gestão condicionada em que estivemos nos fez perder algumas oportunidades. Ainda vamos tentar recuperar algumas, mas outras já foram definitivamente perdidas.

Em paralelo com África, a Ásia, em concreto, a China, mantém-se como uma aposta do Grupo PT para os próximos anos?

H.G. - Na China nós estamos com uma operação de localização e seguimento de frotas, que é a Archway, que lançámos por ocasião da visita do Sr. primeiro-ministro. Temos uma participação numa empresa de telecomunicações em Macau, algumas outras participações menores no negócio de directórios e listas telefónicas, e estamos neste momento a estudar, com outros operadores chineses, algumas formas de colaboração. Mas, naturalmente, não estamos ao mesmo nível de África e do Brasil. Estamos muito atentos àquilo que poderá ser o sucesso de algumas parcerias que possamos lançar na China, ma temos um quadro de actuação muito mais seguro e muito mais avançado, em relação ao Brasil e em relação à África, do que em relação à China e ao Extremo Oriente.

Concorrência, é um ponto obrigatório? Como é que vai ser redefinida a relação entre a PT e a Autoridade para a Concorrência, depois de todo este processo tão moroso e tão cáustico para a empresa, como foi a discussão em torno da OPA?

H.G. - Não temos nada a alterar na nossa posição. Nós somos a entidade regulada. A Autoridade da Concorrência é a entidade reguladora. Temos o maior respeito pelos reguladores e tudo faremos para que eles se afirmem e consolidem a sua autoridade na organização do sector. Não escondemos que todo o processo prolongado por que passámos não contribuiu muito para a credenciação e para o reforço da autoridade desses reguladores, mas espero que eles corrijam a trajectória. A eles compete-lhes ser reguladores, a nós compete-nos ser regulados. Porém, nós não aceitamos visões sacralizadas e infalíveis sobre a função do regulador. As decisões dos reguladores são respeitáveis e serão respeitadas, da nossa parte, mas não são indiscutíveis e não são irrecorríveis. Portanto, sempre que for possível manter o quadro de cooperação institucional em que nós sempre trabalhámos, muitas vezes sem reciprocidade, trabalharemos até à exaustão nesse quadro de cooperação institucional. Mas quando não estivermos de acordo, naturalmente que não deixaremos de recorrer para as instâncias de recurso que existem na nossa arquitectura jurídico-constitucional.

Para nós, os reguladores não são entes sagrados. Isso já não existe nas sociedades modernas. Nós queremos integrar-nos num quadro de cooperação institucional, e tem sido isso que tem pautado a nossa actuação, mas não aceitaremos prescindir daquilo que consideramos que é a defesa dos nossos direitos e os nossos interesses.

Mas acha que, afastado este quadro da OPA, será pelo menos mais fácil o diálogo? Lembro-me que referiu, por exemplo, o Prof. Abel Mateus, ao longo de todo este ano, falou consigo duas vezes: quando assumiu a presidência do Grupo e uma segunda reunião posterior.

H.G. - Para me comunicar a decisão que tinha tomado sobre a OPA?

Espera que a relação agora possa ser mais fluida, mais natural entre uma grande empresa e a entidade reguladora?

H.G. - Comigo o diálogo é, digamos, a primeira solução. Por isso, estarei sempre disponível para o diálogo e para dar um contributo positivo e isento sobre as questões que se puserem. Mas, como sabe, os diálogos, não são monólogos, e por isso, envolvem sempre duas partes. Da minha parte, sou por natureza um homem de diálogo, um homem de paz, um conciliador e um negociador. Mas naturalmente que, ultrapassadas estas etapas, também sou um homem de rupturas. Espero que não se chegue a ter necessidade de afirmar essa fase, ou esse aspecto do meu carácter.

Conheceu o Grupo PT, numa circunstância muito atípica, como já teve a oportunidade de referir, como foi este ano de OPA? Costuma-se dizer que as pessoas revelam o seu melhor e o seu pior em situações de grande pressão. Acha que isso o favoreceu em termos da aprendizagem do próprio Grupo e do conhecimento das pessoas que cá trabalham?

H.G. - Sobre essa matéria não sou um bom juiz. Não me cabe a mim apreciar a minha actuação. Ela foi pública e muito exposta.

O conhecimento que tive das pessoas nesta situação de grande pressão levou-me a ter, pela estrutura PT, um respeito ainda maior. É uma empresa com grandes recursos e, sobretudo, com enorme espírito de dedicação, aquilo que se chama vulgarmente um "grande amor à camisola". Estas dores por que passámos ajudaram a aumentar esse espírito de coesão e a consciência de que, ou somos nós a introduzir a tempo as reformas e as alterações que nos projectarão no futuro, ou que alguém as tomará por nós. Acho que as pessoas tiveram noção de que era melhor sermos nós a definir pelas nossas próprias mãos, o nosso destino, do que esperar que viesse um salvador qualquer tratar do nosso futuro porque, seguramente, isso passaria pelo nosso desmantelamento e pela nossa descaracterização, enquanto grande empresa, enquanto empresa com vocação internacional e enquanto empresa agente da modernização do país e da construção, também, do desenvolvimento do próprio país.

Outro dos resultados deste ano difícil prende-se com a percepção que existia face à sua nomeação, usando a terminologia do sector, de que não era um homem "da casa", que veio de fora para assumir a presidência do Grupo. Um ano depois, é o herói de todo este processo e há, de facto, um afecto expresso por colaboradores e por quadros em relação ao seu desempenho? Como é que sentiu essa mudança de percepções?

H.G. - Já não é a primeira vez na minha vida que fui posto em situações difíceis e para as quais era duvidoso que tivesse experiência anterior, já que eram situações novas. Esta situação que eu vim enfrentar na PT também é uma situação nova. Não tinha eu experiência, nas também não tinha mais ninguém. Por isso, vim com o que tinha, que era a minha capacidade de me adaptar e de ter que responder a questões que eram novas. Não foi a primeira vez na minha vida que me vi em situações, algumas delas limite, e procurei reagir com aquilo que sou e com aquilo que tenho, que é a minha experiência, os meus conhecimentos e a minha maneira de ser.

Quanto ao traço afectivo que, por ventura, se terá criado é natural. Acontece quando estamos todos no mesmo barco e estamos todos a responder aos mesmos perigos, todos a querer rumar na mesma direcção. Naturalmente que se estabelece uma relação de cumplicidade e de comunhão de objectivos que nos aproximam. Hoje já não serei aquela incógnita para os trabalhadores da PT, já tive que mostrar aquilo de que sou capaz e aquilo que valho. Uns com certeza que gostarão, outros com certeza que não gostarão. Eu não sou uma pessoa que crie muitos consensos. Sou uma pessoa que divide as águas. Não ando aqui para enganar ninguém.

Sou como sou, sou o que sou, exponho-me, não escondo, não faço truques, não faço batotas. Toda a gente sabe que, comigo, as palavras têm um valor que é o valor facial? temos um trabalho feito, revejo-me com orgulho nesse trabalho que está feito, sobretudo porque não é um trabalho de que eu seja o proprietário. É um trabalho que eu fiz em colaboração com uma enorme equipa e com um forte apoio e um fortíssimo sentimento por parte de toda a empresa, desde os trabalhadores de funções mais humildes até aos mais talentosos colaboradores que esta casa tem, e tem muitos. Não sou dono desse trabalho, sou apenas um dos elementos desse grupo e, naturalmente, tenho uma honra muito grande em ter sido, digamos, a ponta do iceberg dessa enorme equipa.

Mas é dono de um estilo muito próprio que foi sendo reconhecido pelas pessoas ao longo deste ano? Estou a pensar em traços que nos habituámos a ver em si, nomeadamente o uso dos provérbios, nomeadamente os alentejanos que gosta especialmente, em situações de tensão, as respostas com uma terminologia diferente daquela a que se está habituado na área da gestão e, uma grande simplicidade na forma como comunica com todas as pessoas e isso é, de facto, o seu estilo?Ajudou nesta fase mais conturbada?

H.G. - É. Como se dizia na novela Gabriela "eu nasci assim"? e já não tenho tempo para mudar. Não sei se ajudou, se não ajudou. É esse, de facto, o meu estilo de gerir. Não sou um recém-chegado à gestão de empresas. Cheguei a uma empresa de grande dimensão, mas esta é a única empresa, desta dimensão e, portanto, qualquer um que chegasse vindo de fora, chegava nas mesmas circunstâncias que eu. Considero um privilégio estar à frente desta empresa e procurarei não defraudar as expectativas que as pessoas têm do meu trabalho, da minha actividade e, sobretudo, eles já perceberam que não me furtarei ao trabalho, nem me furtarei aos desafios que esta empresa tem que enfrentar. É esse, também, o meu estilo.

Referiu numa entrevista que deu quando esteve na China, e a propósito de questões que se prendiam com a política geral do país, que acha que os portugueses, individualmente, têm que pensar no que é que podem fazer para que o país, de facto, possa ser mais moderno, mais competitivo, melhor. Dentro dessa mesma lógica, o que é que acha que, daqui para a frente, cada colaborador vai poder fazer pela PT?

H.G. - Eu penso que o país está nessa fase, em que o importante é que cada um se interrogue como é que pode contribuir para que o país saia desta situação de atraso, em relação à média dos países europeus. A célebre frase de Kennedy, que todos citámos, talvez seja nesta fase como em nenhuma outra a que melhor se aplique ao caso português e também à PT. E eu fui muito claro na mensagem que dirigi aos colaboradores na sexta-feira, depois de termos obtido uma grande vitória para o projecto PT. Temos que assumir, com humildade, que é uma grande responsabilidade que caiu em cima de nós, porque agora temos que cumprir aquilo com que nos comprometemos e pôr esta empresa novamente na linha da frente das melhores empresas europeias.

Este caminho onde chegámos foi feito por algumas gerações de pessoas extremamente talentosas, umas saídas do Técnico, outras saídas das escolas de Gestão, outras com pós-graduações nas melhores escolas estrangeiras, mas houve uma ínclita geração que trouxe a PT a este ponto onde estava quando eu cheguei. Agora compete-nos honrar o trabalho dessa geração e fazer o nosso trabalho de forma profissional, de forma empenhada, de forma esclarecida e olhando para o futuro.

Sempre me impressionou muito uma página da Bíblia em que Lot foi aconselhado pelo anjo a sair da cidade de Sodoma e não olhar para trás, caso contrário seria transformado numa estátua de sal. Eu também me guio por esse conselho que o anjo deu a Lot. Quero honrar o passado, merecê-lo e construir o futuro, tendo presente esse passado e o mérito de quem o construiu. Mas não sei andar para a frente a olhar para trás.

Ver comentários
Outras Notícias
Publicidade
C•Studio