A Reserva Federal norte-americana manteve a taxa de juro diretora num intervalo entre 0% e 0,25%, tal como se esperava, uma vez que o seu presidente, Jerome Powell (na foto), já tinha afirmado que não considerava adequado partir para um cenário de juros negativos.
O banco central sublinha, no seu comunicado desta quarta-feira, que a covid-19 coloca grandes riscos no "médio prazo", pelo que irá utilizar o seu "vasto leque de ferramentas" para apoiar a economia dos EUA numa altura em que a pandemia continua a penalizar fortemente a atividade económica do país.
"O surto de coronavírus está a provocar tremendas dificuldades em termos humanos e económicos nos EUA e no resto do mundo", sublinhou o conselho de governadores. "O vírus e as medidas tomadas para proteger a saúde pública estão a provocar fortes declínios na atividade económica e um grande aumento das perdas de empregos", diz o comunicado.
No passado dia 15 de março a Fed tinha reduzido os juros diretores em 100 pontos base, para o atual patamar, com a taxa dos fundos federais a regressar assim ao intervalo dos mínimos históricos onde permaneceu por muito tempo, antes de ter sido iniciada a normalização da política monetária.
A 3 de março, a autoridade monetária liderada por Jerome Powell (na foto) tinha já procedido a um corte surpresa de 50 pontos base da taxa diretora, para um intervalo entre 1% e 1,25% –, isto na tentativa de conter o impacto económico do coronavírus. Foi a primeira vez que a Fed anunciou um corte de emergência desde a crise financeira.
Além do corte da taxa de juro diretora para zero, a meio do mês passado, a Fed comprometeu-se com um vasto programa de compra de ativos para ajudar a economia durante o choque trazido pela covid-19, mas não deu grandes orientações quanto aos passos futuros, pelo que hoje os economistas e participantes de mercado estavam de olhos postos em Powell.
Desde as últimas medidas da Fed foram divulgados dados suficientes que mostram já o quanto a pandemia está a afetar também a economia dos EUA. Nas últimas cinco semanas, 26,5 milhões de pessoas pediram subsídio de desemprego, a confiança dos consumidores caiu para um mínimo de seis anos e as vendas a retalho afundaram para um mínimo histórico.
Além destes indicadores, hoje foi anunciado que o PIB do primeiro trimestre registou uma contração de 4,8%, acima dos 4% estimados pelo consenso dos economistas. Tratou-se da primeira queda em seis anos e a mais acentuada desde 2008.
Da normalização aos novos cortes
Powell tinha declarado que o corte de 25 pontos base da taxa dos fundos federais anunciado em julho do ano passado – o primeiro em mais de 10 anos – não seria o início de um longo ciclo de descidas. Mas em setembro voltou a descer os juros diretores e voltou a fazê-lo na reunião de política monetária de outubro. Em dezembro e depois em janeiro deste ano já não lhes mexeu.
Com as três reduções do ano passado, tudo apontava para que tivesse ficado para trás o ciclo de normalização iniciado há pouco mais de quatro anos. E ficou.
Depois de cerca de sete anos sem mexer nos juros (tinha-os cortado em dezembro de 2008), que se mantiveram em mínimos históricos entre 0% e 0,25%, a Reserva Federal elevou nove vezes os juros entre finais de 2015 e dezembro de 2018.
A Fed procedeu ao primeiro aumento (de 25 pontos base) em dezembro de 2015 e posteriormente voltou a incrementar em 25 pontos base a taxa diretora em dezembro de 2016. Seguiram-se mais três subidas de 25 pontos base em 2017 e mais quatro aumentos em 2018.
Em julho de 2019 procedeu então ao primeiro corte desde dezembro de 2008. Ou seja, 10 anos e meio depois, regressou a uma política de estímulos à economia, num momento de desaceleração – o que, ainda assim, continuou a "saber a pouco" ao presidente norte-americano, com Trump a insistir em cortes mais profundos, baixando os juros diretores diretamente para os 0%, e a dizer que a Fed não tinha coragem.
Recorde-se que o presidente da Fed disse no mês passado que o banco central não vê como adequada nos EUA uma política de taxas de juro negativas.

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